Ciência e Religião são magistérios não-interferentes.

Sérgio Besserman diretor do Instituto PereiraPassos, do Rio foi presidente do IBGE. Esse personagem escreveu um artigo originalmente publicado em ‘O Globo, no dia 01 de abril de 2005 e também divulgado pela Sociedade Brasileira de Proteção a Ciência, o qual aproveitei e modifiquei, ao meu prazer, no intuito departicipar do debate que envolve, nesta lista, cientificistas e adoradores da ciência de um lado e religiosos e liberais de outro, numa combinação historicamente estranha: Começa ele dizendo que: o paleontólogo e grande divulgador da ciência, Stephen Jay Gould, defendeu em um belo livro, ‘Pilares do tempo’, a idéia de que ciência e religião são ‘magistériosnão-interferentes’. O magistério da ciência é uma busca pelos fatos e leis da natureza e desenvolve teorias que tentam coordenar, controlar e explicar esses fatos. Buscam o sucesso. O magistério da religião opera em uma esfera completamente diferente, a dos desígnios, significados e valores humanos,assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. Buscam a salvação. De qualquer maneira, a resposta esta clara: os dois magistérios tem objetivos diferentes. Os dois magistérios não podem ser unificados, mas podem florescer lado a lado, em paz, enriquecendo-se mutuamente. Portanto, as regras do debate interno em cada magistério são completamente diferentes. Por isso, falar de validade dos enunciados só é e deve ser feita no interior de cada magistério. Ou seja, quando procuramos um discurso que estabelece critérios de validade para outro magistério já estamos no ambito de um processo de dominação e o resultado não é outro do que a violência e os desejos de homogeneização. O debate científico exige hipóteses que possam ser testadas, os argumentos devem ter coerência e serem fundamentados, as discussões não são vencidas pela maioria e sim pelo questionamento implacável das hipóteses com os fatos. Ao contrário do que muitas vezes imagina o senso comum, na ciência não há verdades definitivas e é obrigatório o reconhecimento de uma relativa ignorância, assim como estar sempre aberto aonovo. Ensina-nos o filósofo da ciência KarlPopper, idealizando na minha opinião demais os nossos cientistas, que todos de fato estão preocupados com a crítica e desenvolvimento de sua ciência.
No magistério da religião, ao contrário, todas ascrenças e toda fé são igualmente legítimas. Religião não se discute, ou melhor, pode-se discutir, mas não há regras que permitam convencer o outro. Num mundo globalizado é urgente que os religiosos aprendam a conviver uns com os outros. Nesse sentido a existência do estado liberal e sua ética da tolerância é umabenção. Na maioria das culturas o debate sobre osproblemas morais, o valor e o significado da vida tem sido ocupado pela religião, embora não haja qualquer impedimento para que ateus e agnósticos participem dos debates éticos. Os dois magistérios não vão se fundir e a Humanidade só tem a ganhar com um reconhecimento dessa realidade e um compromisso de diálogos respeitosos e esclarecidos entre essas esferas.Assim, voltamos ao início deste debate.
Embora,Religião e Ciência são magistérios não-interferentes, não podemos dizer que são inconciliáveis. Com relação ao criacionismo, ouao assim chamado ‘design inteligente’, no campoda ciência suas idéias não têm nenhum valor ousignificado. São bobagens equivalentes a afirmarque o homem nunca foi à Lua ou que a Terra não éesférica. Seus adeptos não têm nada a dizer quepossa ser considerado um argumento científico. Já do outro lado, o do darwinismo, da adaptação dasespécies segundo a seleção natural, os argumentosdos registros fósseis, da genética e até da observação direta de espécies ao longo do tempo,merecem a consideração até mesmo de religiosos.
Como sempre na ciência, ainda há mundos pordescobrir. É bem provável que, neste exatomomento, a partir das recentes descobertas sobreo papel do DNA não-sintetizador de proteínas,antes chamado de DNA-lixo, estejamos vivendo umagrande revolução na nossa compreensão dos modoscomo opera a seleção natural.O criacionismo não está apto a participar dodebate segundo as regras da ciência, mas, nomagistério da religião, há muito o que discutirsobre as interpretações hiperliterais do textobíblico que o sustentam.Na verdade, apenas uma pequena minoria de algunsevangélicos, entre os bilhões de adeptos dasreligiões do Livro, os judeus, os cristãos e osmuçulmanos, fez opção por crenças derivadas destaleitura hiperliteral.Foi o Papa João Paulo II quem, resumindo aEncíclica Humani Generis (1950), nos lembrou que,antes mesmo da descoberta da dupla hélice do DNA,em meados da década de cinqüenta, o Papa Pio XIIjá havia afirmado não haver oposição entre aevolução e a doutrina da fé no homem e em suavocação, embora acrescentasse que a evoluçãoainda não era uma doutrina científica aindasólida.Em um pronunciamento de 1996, quase cinqüentaanos depois, João Paulo II reafirmou com maisênfase esse pensamento e achou necessárioacrescentar que agora a evolução não era mais umahipótese e que as informações e teoriasadicionais haviam colocado a factualidade daevolução além de qualquer dúvida.A poucos dias atrás o novo Papa reforçou essasidéias afirmando que na realidade, os grandesprogressos do saber científico a que assistimosno século passado ajudaram a compreender melhor omistério da criação.Os judeus são conhecidos como o Povo do Livro. Umlivro e, mais ainda, o Livro, nunca será lido damesma forma por duas pessoas, nunca será relidocomo foi lido, enriquecerá sua mensagem a cadageração. Há um comentário talmúdico que pergunta:o que é que pode morrer antes mesmo de ternascido? Um livro, se não for lido.Se Ele ( Deus) nos deixou um Livro é porquequeria que fosse lido, não decorado como umacartilha. A verdadeira leitura é aquela que expande o espírito. Qual biólogo, religioso ounão, poderia deixar de admirar a passagem doHomem sendo criado do barro como umaextraordinária imagem da maravilhosa história davida?
Entretanto, permitir o ensino do criacionismo nasaulas de ciência seria obscurantista e inconstitucional. Fazê-lo em aulas de religião,de forma exclusivista, como chegou a seranunciado pela governadora do Estado do Rio deJaneiro, seria um ato de intolerância e, a longo prazo, contrário ao ensino dos valoresreligiosos.No primeiro caso, porque privilegiaria uma formamuito específica de crer, em relação a todas asdemais. No segundo, por preconizar uma fé tão frágil que exige rejeição ao conhecimentoproduzido pela ciência para se erguer. E completaria, do mesmo modo, os cientistas quenão permitem, por sua vez, o ensino religioso e ocriacionismo ou qualquer outra teoria, nointerior dos magistérios religiosos, professam uma intervenção autoritária e inoportuna que diminue em vez de aumentar a força de seusargumentos e seus métodos. Professam da mesma forma uma fé fragil e fundamentalista.
Um abraço;
Luiz Eiterer
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de pesquisa: o que é hipótese e marco teórico

Projeto de pesquisa: construindo o marco teórico

História do Direito: O direito grego antigo.