Comentários sobre o livro de Richard Dawkins "Deus, um Delírio"

A Folha de São Paulo publicou no dia 25/8/2007 artigos sobre "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins, e um texto do próprio autor.

Na minha opinião esta discussão está colocada em termos errados. Não se trata de escolher entre ciência e religião, como sugere as idéias de Dawkins e dos fundamentalistas protestantes ou não. O importante é deixar claro que precisamos manter as instituições que permitem a convivência e a tolerância entre os diversos tipos de discursos ou saberes. E não lutar para extinguir um ou outro saber, pois acho que isso é impossível.

O colunista Marcelo Coelho resenhou o livro, que considerou "corajoso e furibundo". Para quem não sabe, furibundo significa que anuncia algo com furor desproporcional ao que se refere, chegando a um tom sinistro, lúgubre. Raivoso.

O colunista Marcelo Leite fez objeções ao "ultradarwinismo".

Claudio Angelo, editor de Ciência, escreveu que o biólogo "paga o preço de sua honestidade intelectual".

Os textos podem ser lidos em www.folha.com.br/072353.

O biólogo Dawkins afirma que os Estados Unidos está vivendo um ataque à racionalidade e aos valores iluministas que inspiraram a sua fundação.

"Os ataques ignorantes e absolutistas às pesquisas com células-tronco representam apenas a ponta de um iceberg"

A América, fundada em meio ao secularismo como farol do iluminismo do século 18, está se tornando vítima da política religiosa -uma circunstância que teria chocado seus fundadores. A tendência política hoje ascendente atribui mais valor a células embrionárias que a pessoas adultas. Ela se preocupa obsessivamente com o casamento entre homossexuais, em detrimento de questões genuinamente importantes que de fato fazem uma diferença para o mundo. Conquista apoio eleitoral crucial de um eleitorado religioso cujo domínio da realidade é tão tênue que seus integrantes esperam ser "carregados em êxtase" ao paraíso, deixando suas roupas tão vazias quanto suas mentes. Leia mais clicando nos links abaixo.

Especial

Livro de Richard Dawkins não passa de libelo político

LUIZ FELIPE PONDÉ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Falta nessas pessoas que teimam em ser profetas um pouco daquela sabedoria discreta que encontramos em gente como Fernando Pessoa: o improvável Deus nos protege da fé grosseira em ídolos com cabeça de bicho, como o culto da Humanidade, "mera idéia biológica".
Pouco céticas e muito dogmáticas, elas confundem coisas como a salutar disciplina cética com o ateísmo. Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. A humanidade é mais infeliz do que imagina nossa vã filosofia da emancipação.
O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), "Deus, um Delírio", não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.
Lembremos que não existem cosmologias de laboratório.
Afirmações como "tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança" soam bem num workshop para auto-estima.
Seu foco são as utopias modernas de salvação: não é por acaso que flerta com alguns dos totalitarismos mais sofisticados de nossa época, entre eles, aqueles, aliás, que "melhoraram muito" as relações entre homens e mulheres, esmagado-as sob a bota do ressentimento típico da desconstrução social genérica.
O livro vende o darwinismo como teoria "progressista" (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a "sair do armário", tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?
De Stálin a Fidel, de Robespierre a Mao Tse-tung, todos seduziram a "inteligência atéia". O ateísmo político domina a sensibilidade "pop-inteligente" há décadas, questões como a alegre legalização do aborto, a "revolta poético-científica do desejo", a metafísica materialista e a ignorância filosófico-religiosa provam isso.

Ateísmo mais elegante
Quase todos crêem no "produto emancipação". Deus não garante o "Bem" (nenhuma teologia séria pensa isso), nem o ateísmo a inteligência ou a ética.
Gostamos de matar e pronto.
Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da "ordem" em meio à cegueira da matéria).
Todavia, reconheçamos que ele acerta ao dizer que a "religião inteligente" pouco tem feito diante da violência fundamentalista e do Mac-Jesus. Mas seria Deus que nos faz gostar de matar e sermos banais como qualquer animal que se arrasta no pó?
A inteligência se faz vítima do ruidoso mundo da democracia militante de massa. Este livro é a prova, ao tentar fazer do darwinismo uma teoria palatável à massa medrosa: se deixarmos de acreditar em Deus, seremos mais felizes... Quem disse que a beleza vencerá? O darwinismo é, filosoficamente, o ateísmo mais elegante que existe, nada prova sobre Deus, mas pelo menos não incorre no elementar erro do marxismo, que confunde representações sociais com o problema da ordem cósmica. Diante desse ruído, ainda que me considerem cético demais, confesso: prefiro Fernando Pessoa e Deus.


LUIZ FELIPE PONDÉ é filósofo, professor da PUC-SP e da FAAP, é autor de, entre outros títulos, "Crítica e Profecia - Filosofia da Religião em Dostoiévski" (ed. 34) e "Do Pensamento no Deserto - Ensaios de Filosofia, Teologia e Literatura" (Edusp, no prelo).

DEUS, UM DELÍRIO
Autor:
Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 45, em média (528 págs.)
Avaliação: regular




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