Zygmunt Bauman - a substituição do panóptico pelo banco de dados

Em vez de panopticismo o mundo de hoje é regido pela informação. No livro de Zygmunt Bauman, Globalização: conseqüências humanas (1999), nas páginas 56 a 58, publicado pelo editor Jorge Zahar, ele mostra que para além do panóptico, que exigia vigilância constante, disciplina, exames constantes, certificação e, portanto, uma liberdade restrita a um determinado espaço, nós temos agora o banco de dados, que oferece uma liberdade maior de movimento, desde que você ofereça cada vez mais informações aos bancos de dados, que possa permitir reconhecer quem você é e o que você quer. O banco de dados visa descobrir os "intrusos": nova figura que afasta os locais e representa aquele que não está registrado e catalogado. No mundo da informação, o global é o catalogado.
Para conferir veja um trecho do livro:

No seu brilhante ensaio sobre os bancos de dados eletrônicos como uma versão ciberespacial atualizada do Panóptico, Mark Poster diz que “nossos corpos são fisgados dentro das redes, dos bancos de dados, nas auto-estradas da informação” — e assim todos esses locais de armazenamento de informação onde nossos corpos são, por assim dizer, “amarrados informaticamente” “não


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mais oferecem refúgio à observação ou uma barreira em torno da qual se possa traçar uma linha de resistência”. A armazenagem de quantidades maciças de dados, ampliadas a cada uso de um cartão de crédito e virtualmente a cada ato de compra, resulta, segundo Poster, num “superpanóptico” — mas com uma diferença: os vigiados, fornecendo os dados a armazenar, são fatores primordiais — e voluntários — da vigilância. É verdade que a quantidade de informação armazenada sobre elas faz as pessoas ficarem preocupadas; a revista Time descobriu que 70 a 80 por cento dos seus leitores estavam “muito ou um tanto preocupados” em 1991 — mais com informações coletadas pelo governo e empresas de crédito e seguros, menos com dados armazenados por empregadores, bancos e empresas de marketing. Em vista de tudo isso, Poster se pergunta por que “a ansiedade com os bancos de dados ainda não se tornou uma questão de importância política nacional”.8



Mas por que deveríamos nos preocupar...? Examinando mais de perto, a aparente similaridade entre o Panóptico de Foucault e os bancos de dados contemporâneos parece em grande parte bem superficial. O principal propósito do Panóptico era insular a disciplina e impor um padrão uniforme ao comportamento dos internos; o Panóptico era antes e acima de tudo uma arma contra a diferença, a opção e a variedade. Semelhante objetivo não se coloca ao banco de dados e seus usuários em potencial. Bem ao contrário — são as empresas de crédito e marketing quem mais aciona e utiliza os bancos de dados e o que buscam é garantir a confirmação pelos arquivos da “credibilidade” das pessoas listadas, sua confiabilidade como clientes e eleitores, e que os incapazes de escolha sejam peneirados antes que causem danos ou se desperdicem recursos; com efeito, ser incluído no banco de dados é a condição primordial da “credibilidade” e este é o meio de acesso à “melhor oportunidade local”. O Panóptico laçava seus internos como produtores e/ou soldados, dos quais se esperava e exigia uma conduta monótona e rotineira; o banco de dados registra os consumidores confiáveis e dignos de crédito,


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eliminando todo o restante que não deve ser levado em conta no jogo do consumo simplesmente pelo fato de não haver nada a registrar sobre suas atividades. A principal função do Panóptico era garantir que ninguém pudesse escapar do espaço estreitamente vigiado; a principal função do banco de dados é garantir que nenhum intruso entre aí sob falsas alegações e sem credenciais adequadas. Quanto mais informação sobre você contenha o banco de dados, mais livremente você poderá se movimentar.
O banco de dados é um instrumento de seleção, separação e exclusão. Ele segura na peneira os globais e deixa passar os locais. Algumas pessoas ele admite no ciberespaço extraterritorial, fazendo com que se sintam à vontade onde quer que se encontrem e sejam bem-vindas onde quer que cheguem; outras têm seu passaporte e vistos de trânsito confiscados, sendo impedidas de perambular pelos espaços reservados aos residentes do ciberespaço. Mas este último efeito é subsidiário e complementar do primeiro. Ao contrário do Panóptico, o banco de dados é um veículo de mobilidade, não grilhões a imobilizar as pessoas.


Leia também: Entrevista interessante com Zygmunt Bauman
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