A fabricação do humano


No livro Vigiar e Punir, Michel Foucault, traça um mapa de como surgiu o humanismo moderno. O humanismo moderno surgiu com o desenvolvimento de uma racionalidade técnica, ou simplesmente, com a valorização em nosso dia-a-dia da técnica. De modo que, esta racionalidade passou a ser capaz de condicionar uma forma de pensar que se preocupa com os detalhes e com o valor das pequenas coisas, transformando-a em meio de inspecionar, analisar e fazer funcionar cada parte de um corpo, não permitindo esquecer e não permitindo deixar nenhum elemento para tráz. Esse domínio do corpo é a característica e a exigência do pensamento técnico. Tanto faz que o corpo seja coisas, homens ou grupo de homens. O que se acredita é que a tropa unida em um espírito de corpo precisa-se condicionar de um modo técnico. Precisa-se de um treinamento constante. Mas, para sermos específicos de qual corpo estamos exatamente falando: estamos falando do corpo dos outros - o corpo humano de cada um. É assim que o modo de pensar técnico invade os quartéis, os colégios, as escolas primárias, os hospitais e a fábrica. O domínio do corpo dos outros por meio da preocupação com os detalhes faz parte de uma política de coerções, que nada mais é do que disciplinas: exposição dos corpos a um treinamento constante, ininterrupto, embora, não necessariamente exaustivo e nem violento. O que se espera com esta política é o controle do corpo, que ele se torne cada vez mais controlável, cada vez mais analisável, pois um corpo controlável se torna mais útil, isto é, mais dócil, mais obediente, enfim, mais previsível.

Todavia, não se trata de se apropriar dele, de fazer com que o corpo obedeça a um capricho; fazer o corpo se submeter a uma forma específica de trabalho e que limite a suas funções. Não! Não é isso que se espera com a disciplina. O que se espera é que o corpo se torne conhecido e que se possa usar todas as potencialidades que ele possa proporcionar. A disciplina é uma política de aproveitamento de todas as habilidades de um corpo.

O ultrapassamento da disciplina

Os mesmos problemas que são colocados à técnica são colocados à disciplina. O poder da técnica não admite ser desafiado por nenhuma instância humana, seja ela individual ou coletiva. O acreditar que é o homem que fabrica o homem consiste na forma radical do esquecimento do que é próprio do existir humano e o ápice de um modo de pensar técnico. Em Conversas a três num caminho do campo (1944-1945), Heidegger mostra que o pensamento pós-metafísico não deve ser factual e nem científico e nem filosófico. O modo de pensar precisa se alterar para que se possa ultrapassar a técnica e a disciplina. É preciso novamente salvar a possibilidade das coisas serem coisas. Isto é, o pensador pós-metafísico é aquele que caminha sem transformar as coisas em objetos. O pensador pós-metafísico procura desobjetificar. Como diz Zeljko Loparic num livro sobre Heidegger(2004):
Na tarefa de desobjetificar está embutida a de desconstruir a metafísica e seus subprodutos, a técnica e a ciência modernas, isto é, a incubêmcia de mostrar que o o saber metafísico, científico e tecnológico são derivados, secundários e, além disso, encobridores do fenômeno originário do ser ou da presença.

Talvez a maneira de caracterizar esse caminho da desobjetificação é procurar fazer o contrário do que Hegel buscou que é a construção do absoluto. A construção do absoluto, isto é, a construção da interpretação completa e exclusiva, a absolutização é a via certa do esquecimento total do absoluto. A absolutização foi o projeto da metafísica que teve início em Platão e foi completada por Hegel, no qual tudo passa a ser mediado pelo conceito. O pensador pós-metafísico deve fazer o contrário disso.
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