O sonho de Barth

Extraído do livro de Thomas Merton de 1965, Reflexões de um espectador culpado (Conjectures of a guilty bystander), publicado pela editora Vozes em 1970.

Kabir, o servo, canta: "O' Sadhu!
termina tuas compras e vendas, e acaba
com teu bom e teu mau - pois não há
mercados nem lojas no país
para onde vais! - Kabir


Karl Barth teve um sonho. Sonhou com Mozart.
Barth sempre se sentiu melindrado pelo catolicismo de Mozart e pelo fato dele rejeitar o protestantismo. Foi Mozart que disse: "O protestantismo está todo na cabeça" e " os protestantes não conhecem o sentido do Agnus Dei qui tollis peccata mundi".
No sonho, Barth foi indicado para examinar Mozart em teologia. Desejava tornar o resultado do exame tão favorável quanto possível. Assim, em suas perguntas aludia expressamente às Missas do compositor.
Mozart, porém, não respondeu palavra.
Fiquei profundamente comovido com a descrição deste sonho por Barth e quase pensei em escrever-lhe uma carta sobre isso. O sonho tem a ver com a sua salvação e Barth está talvez se esforçando por admitir que ele será salvo mais pelo Mozart que nele existe do que por sua teologia.
Cada dia, durante anos, Barth tocava Mozart todas as manhãs antes de iniciar seu trabalho sobre o dogma. Procurava, talves inconscientemente, despertar o Mozart sofiânico nele oculto, a sabedoria interna que se harmoniza com a música divina e o cósmico e é salva pelo amor, sim, mesmo pelo eros. Enquanto o outro ser, o teológico, aparentemente mais preocupado com o amor, abraça um ágape mais severo, mais cerebral: um amor que, afinal, não está em nosso próprio coração, mas somente em Deus e é revelado apenas à nossa cabeça.
Barth diz, também com muito sentido, que "é uma criança, mesmo uma criança 'divina' que nos fala na música de Mozart". Alguns, declara Barth, sempre consideraram Mozart uma criança em relação às coisas práticas ( mas Burckhardt " rejeitou seriamente" este ponto de vista). Ao mesmo tempo, ao menino-prodígio Mozart nunca foi permitido ser criança no sentido literal da palavra. Tinha seis anos quando deu seu primeiro concerto. Contudo, foi sempre uma criança "no sentido mais elevado do termo".
Não temas, Karl Barth! Confia na misericórdia divina. Se bem que cresceste e te tornaste teólogo, Cristo permanece em ti uma criança. Teus livros (e os meus) valem menos do que poderíamos pensar! Há em nós um Mozart que será a nossa salvação.
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