Responsabilidade implica em poder pensar

Desembocamos numa questão. Impõe-se que nos demos claramente conta do fato seguinte: toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção.

Isso não quer dizer que a ética da convicção equivalha a ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade a ausência de convicção. Não se trata disso, evidentemente. Todavia, há oposição profunda entre a ação de quem se conforma às máximas da ética da convicção - por exemplo, dizendo em linguagem religiosa, "O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus" - e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: "Devemos responder pelas previsíveis conseqüências de nossos atos".

Quando as conseqüências de um ato praticado por pura convicção se revelam desagradáveis, o partidário de tal ética [de convicção] não atribuirá responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus, que assim criou os homens.

O partidário da ética da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do homem e entenderá que não pode lançar a ombros alheios as conseqüências previsíveis de sua própria ação. Dirá, portanto: "essas conseqüências são imputáveis à minha própria ação". Dirá: "Eu estou errando ou errei em algum ponto".

O partidário da ética da convicção só se sentirá "responsável" pela necessidade de velar em favor da chama pura da doutrina pura, a fim de que ela não se extinga. O homem da convicção se preocupa em velar, por exemplo, para que se mantenha a chama que anima o protesto contra a injustiça social. Justiça social é uma abstração, uma idéia, que existe clara em sua mente.

Seus atos, que só podem e só devem ter valor exemplar, mas que, considerados do ponto de vista do objetivo essencial, aparecem como totalmente irracionais, visam apenas àquele fim: estimular perpetuamente a chama da própria convicção.

A ética da responsabilidade dá valor a ação de cada um. A ética da convicção dá valor a uma idéia. Viver com aqueles que se conformam com uma ética da convicção pode ser perigoso, pois, eles não se responsabilizam por atrocidades cometidas em nome da idéia que veneram. Os que vivem em uma ética da convicção perdem com facilidade a autonomia. Se vêem apenas como meio para a concretização de uma idéia.

Infelizmente, há muitos que acreditam que basta ter vontade e não se preocupam com a qualidade da ação. Vontade e ação se ligam pelos pensamentos. Permanecer preso a vontade ou a uma ação inadequada é perder a capacidade de pensar, ou seja, de ligar a vontade à ação. Por isso, quando não podemos pensar, neste caso, quando deixamos de ser livres, logo, vivemos com medo ou dominados por alguma coisa, deixamos de ser responsáveis por nossos atos. Daí concluir sobre a importância do pensar e dos pensamentos para a concretização da liberdade real.

Luiz Henrique Eiterer

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