Carta da professora de filosofia ao Ministro Fernando Haddad

São Paulo, 16 de julho de 2008

Prezado Sr. Fernando Haddad
Ministro da Educação do Brasil

Sou professora da rede estadual de ensino, no Estado de São Paulo.
Estou há três décadas no trabalho do ensino. Nunca pedi licença médica
e tenho pouquíssimas faltas. Fui casada e tenho um filho, que criei
sem pedir pensão para meu marido que, por razões que não vem ao caso,
não podia arcar com tal despesa.

Senhor Ministro, eu poderia tratá-lo de "você", pois é bem mais novo
que eu, é menino ainda. Mas, dado estar em um cargo do governo, vou
usar o "Sr.", mas isso não implica em um tratamento para "colocar
distância", como os antigos faziam em jornal do interior.

Assisti ao programa do Jô Soares, quando de sua entrevista. Vi que uma
moça fez uma pergunta ao senhor, sobre filosofia e sociologia no
ensino médio. Ela queria saber o que o senhor faria para preparar
melhor esses professores. O senhor repetiu as informações que o Jô já
havia passado e que está nos jornais, a respeito da lei que colocou a
filosofia e a sociologia no currículo da escola média. O senhor não
tinha nenhuma proposta para dizer, e não respondeu a pergunta da moça.
Fiquei bem decepcionada.

O senhor também disse que falta dinheiro para a educação. Como outros
que passaram pelo seu cargo, o senhor tratou logo de culpar o passado
pela falta de dinheiro. Ou seja, o governo do Presidente Lula não
teria responsabilidade sobre o assunto, mesmo já estando em segundo
mandato. Os responsáveis seriam os antecessores. Vi sua resposta como
uma fuga.

Esperava mais, mas nada apareceu na entrevista de novo além do fato de
que o senhor tem tempo para fazer aulas de lutas marciais três vezes
por semana. E no meio dessa informação, vi também que o senhor se
vangloriou por ter conseguido aprovar o piso salarial para os
professores – 950 reais para 2009. Nesse caso, penso que a questão das
lutas marciais vem a calhar. Por favor, preste atenção.

A compra de supermercado que faço para minha casa, para duas pessoas,
fica em 200 reais mensais. O aluguel de nosso pequeno apartamento, de
apenas dois minúsculos quartos, é de 400 reais. Gasto 150 reais de
transporte coletivo no mês. A Internet que temos – como necessidade de
trabalho – dá um gasto de 70 reais, e a velocidade é a mais baixa do
Speed. Compro livros e, em geral, gasto nisso algo em torno de 50
reais no mês. Tento economizar nisso, mas é impossível na função de
professora não comprar livros. Mantenho-me atualizada em cinema, para
poder conversar com os jovens para quem dou aulas, e isso leva do meu
orçamento mais 40 reais no mês. Meu filho não tem ainda 18 anos, mas
trabalha e ajuda em casa, e graças a isso quase conseguimos fechar o
mês. Não posso contar com todo o dinheiro dele, pois ele paga escola e
condução. Ele dá duro em uma firma de fotocópias, e chega esgotado
para ir para a escola. Também chego tarde do serviço, pouco nos vemos.
Não é uma vida fácil. Quando ficamos doentes, nosso orçamento estoura
– a farmácia é um local que não podemos entrar sem sair de lá com no
mínimo uns 50 reais gastos – isso é batata. Felizmente, gozamos de boa
saúde.

Bem como o senhor pode ver, a soma de meus reduzidíssimos e espartanos
gastos é maior do que os 950 reais do piso salarial em determinados
meses, e noutros, empata. Até meados de 2009, eu estarei gastando
mensalmente mais do que os 950 reais.

Mas há algo ainda mais triste. Li que os 950 reais nem são para 2009,
na realidade. Pois deverão ser alcançados "gradativamente", num prazo
maior, que poderá chegar até a mais que 2010. Isso é tudo? Não! Há
algo mais perverso nessa conversa: as estatísticas governamentais (e
só elas) dizem que a maioria dos professores ganha mais do que o piso,
e que por isso o senhor está "rindo à toa" ao aprovar o piso, pois
considera "muito bom" para os professores. Senhor Ministro, há erro
nisso. Os professores vão ganhar por 40 horas os 950 reais, e isso não
pode ser comemorado, pois a profissão continua sendo desprestigiada
com tal salário. Pois em vez do senhor ficar preocupado em comparar o
nosso salário com o de outras profissões com igual anos de estudo, o
senhor faz comparações regionais que não levam em conta também os
gastos de cada um em cada região. Não é verdade que quem está em uma
região mais pobre e ganha menos tem um custo de vida menor do que quem
está em São Paulo. Cada local tem especificidades, e no geral, a
verdade é que com esse piso a profissão de professor não melhora em
nada, pois continua sendo uma profissão que, se a abraçamos
inteiramente, não nos dá sustento.

Ora, mas se a profissão de professor é para ser "um bico", como
podemos ter outro trabalho se a jornada por 950 reais é de 40 horas?
Não posso vir trabalhar em três períodos, pois o "terceiro turno" eu
tenho de fazer no serviço de casa, além de ter de corrigir provas,
preparar aulas, estudar, cuidar do meu filho etc.

Além disso, a comparação do senhor está errada, por outra razão:
quando eu era uma estudante de colégio, meus professores viviam com um
salário proporcionalmente maior do que o que tenho hoje, e tinham
melhores condições de trabalho. Estudei mais que eles, para ganhar
menos. O senhor é mocinho, e tudo indica que veio de família rica. Não
sei se entende o que é o Brasil e o que foi o Brasil.

Bem, chego então na questão das lutas marciais. Vi que o senhor tem
uma barriga. Ainda moço, mas já tem uma barriga. As aulas de luta
marcial que faz não estão ajudando, não é? Os ricos sempre comem mais
do que podem tirar com a ginástica. Então, minha sugestão, com o
devido respeito, é a seguinte: tente fazer a minha vida por apenas um
mês, pegando ônibus e enfrentando classes de adolescentes, lecionando
seriamente. Volte para a casa e faça a janta. Limpe a casa uma vez na
semana. Em um mês, eu garanto, verá que as aulas de luta marcial são
ineficientes para tirar a barriga, e que o que eu faço, sim, dará ao
senhor um corpo sem malhado. Não sei se dá saúde, mas cansaço físico e
mental insuportável, isso dá.

Não estou reclamando, minha carta é apenas para mostrar que e o que eu
faço talvez até dê mais saúde do que outras profissões. E o senhor
poderia participar desse programa, nem que fosse por um pequeno
período experimental. É sério, sem demagogia, o senhor deveria
experimentar, por um mês, tentar viver com 950 reais dando aula aqui
no Estado de São Paulo. Aula no Ensino Médio, em escola pública. Tenho
certeza que após tal experiência, o senhor iria se tornar um Ministro
da Educação melhor.

Agradeço demais por ter lido minha cartinha.
Sua admiradora,
Ana Luísa Costa Matos, professora de filosofia da Rede Estadual
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