Notas sobre a malevolência

Não pensem que não consultei o dicionário para saber o que significa malevolência. Mas, o que quero é entender por que alguem se passa por aquele que tem má índole ou visto como mau. Acho que é uma questão de marcação de posição. Geralmente, quando queremos ser claros e marcar de um modo bem firme uma posição somos vistos como um ser hostil. O hostil nem sempre tem maus propósitos. Ao contrário, o hostil separa, afasta, mantém um distanciamento. Que pode ser bom. Mas, o hostil geralmente é visto como o malevolente, e geralmente associado ao mal. Mas, a malevolência não é exatamente o mal.

Para se tornar senhor da malevolência é preciso querer conhecer e não simplesmente querer o mal. Precisa querer saber o que é melhor. O malévolo não quer compreender, repito, quer saber o que é melhor - primeiro para ele é claro. Mas, se é bom para ele, pode ser bom para todos. Não é verdade. A benevolência é cara àqueles que não acreditam no pior. O malévolo tem claro para ele que as coisas podem ser piores. O malevolente é mais do que um desconfiado.

Tendo esclarecido como devemos enxergar um malévolo e sua ligação com o conhecer, acho que podemos dizer agora que a procura do conhecimento não permite que sejamos benévolos com os amigos da sabedoria. Que desconfio sempre de que nada sabem, mas nos ajudam a descobrir o que melhor podemos saber. Devemos desconfiar principalmente dos amigos da sabedoria, pois, eles querem ser sábios, mas não são sábios. Ainda mais quando querem ser apenas amigos. De modo que, com suas palavras e expressões não devemos ser benévolos, porquanto é quase certo de que eles não queriam dizer exatamente daquela forma ambígua, obscura e inexata. Mas, dizem.

Isto me parece ser um bom motivo para não ser benévolo com palavras e expressões ambíguas e sem sentido. Se atendermos a formas ambíguas que usam palavras que pode ser interpretadas em dois ou mais sentidos ficamos confusos e podemos não descobrir o caminho da sabedoria. Com essas palavras devemos ser agressivos, tão firmes quão necessário for para que se dissipe a dúvida e fique claro para nós qual é o caminho que se está percorrendo. Reconhecendo que não estamos enganados.

Também, não podemos admitir o argumento de que se já aconteceu ou já foi feito, porque não posso eu fazer novamente. Ora, não pode porque não está certo ou se seguir o caminho errado não se chega ao lugar desejado por cada um de nós. O bem estar de todos.

É preciso mais do que isso para não ser benévolo? Alguem pode retrucar: é preciso ser mais compreensivo. Complacente. Respeitar mais as idéias dos outros.

Compreender, respeitar: palavras importantes. É claro que devemos sempre respeitar os fatos e as pessoas. Porém, o que significa respeitar para nós? Obedecer cegamente, reverenciar e elogiar interesseiramente, sem examinar e sem refletir. Não! Acho que não. Respeitar ou dar-se ao respeito é poder examinar ou ser examinado de um modo livre. Sempre. Sempre e sempre. Nesse sentido, os amigos da sabedoria são sempre dignos de respeito, até mais do que alguns sábios, pois, representam aberturas para novos entendimentos e novos mundos. Fatos e pessoas para nós são as que resistem ao continuo exame. O que não resiste ao exame ou não se coloca disponível ao exame não merece o respeito daquele que pensa.

Para terminar, temos que reconhecer algo que contradiz o que foi dito acima. A despeito de tudo e de todas as circunstâncias e de tudo o que se diz e o que se faz, a pessoa é sempre digna de respeito. Esta crença, a despeito do que sei, me impede de saber mais, e me torna novamente benévolo e obrigado a dizer, quando já não quero mais saber "está bem... Apesar de tudo... Eu o compreendo".
Luiz H. Eiterer
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