O método da análise do discurso

A professora da Fundação Getúlio Vargas, Sylvia C. Vergara, apresenta em seu livro 22 métodos diferentes. Se é claro que elege o método como o centro de sua apresentação e a teoria é apresentada como separada do método, a professora adverte que não podemos separar, na prática, teoria do método. Teoria e método são interdependentes.

Com base na apresentação dos métodos feita pela professora Sylvia Vergara nos deteremos aqui em apresentar o método de análise do discurso.1 Muito usado em pesquisas.

A análise do discurso é um método cujo objetivo é não somente compreender uma mensagem, mas reconhecer qual é o seu sentido, ou seja, o seu valor e sua dependência com um determinado contexto. Linda Putnam e Gail Fairhust2, num manual de comunicação organizacional, em 2001, definem análise do discurso como sendo o estudo de palavras e expressões: tanto a forma quanto o uso no contexto, além dos significados ou interpretações de práticas discursivas.

Há duas diferentes abordagens de análise do discurso: a anglo-saxã e a francesa. A primeira numa perspectiva pragmática e a segunda diz respeito a uma perspectiva ideológica. Dominique Maingueneau3 observa que nos Estados Unidos a análise do discurso é marcada pela antropologia e na França é marcada pela lingüistica e pela psicanálise.

Por sua vez, Roberto Ballalai4 fala de enfoques da análise do discurso: pragmática, teoria da argumentação, teoria da interrogação e do questionamento. Sentido ou uso em determinado contexto, a ação sobre o outro, a questão que origina o sentido são as buscas que são feitas por cada enfoque, respectivamente, em uma mensagem.

Rosalind Gill5 fala de tradições teóricas ligadas à análise do discurso: lingüistica critica, semiótica social ou crítica, estudos de linguagem; a segunda, teoria do ato da fala, etnometodologia e análise da conversação; e a terceira, o pós-estruturalismo. O pós-estruturalismo ou a análise pós-moderna da linguagem centram-se no discurso e na sociedade e em temas como poder e resistência.

A análise do discurso se preocupa em mostrar além do conteúdo, como está sendo usado determinado conteúdo e quais as consequencias deste uso. A análise do discurso é recomendado quando se quer mostrar a forma como se diz alguma coisa. Quando se quer apenas mostrar o que se fala a análise do conteúdo é o método recomendado. A análise do discurso envolve algo mais do que saber o que se fala, envolve saber quem fala, para quem fala, como falam e para que falam, pois o discurso pode ter inúmeras funções e significados.

A análise do discurso permite-nos perceber como se fala, como se dá a interação entre emissor e receptor de uma mensagem, identifica o receptor, interpreta o discurso produzido pelos outros sem desconsiderar a subjetividade do pesquisador.

Para usar o método de análise do discurso é preciso seguir alguns passos: definir o tema e o problema da pesquisa, faz-se a revisão de literatura que trata do problema, selecionar as fontes que serão pesquisadas, verificar a possibilidade de acesso as fontes, fazer a leitura das fontes, identificar as idéias principais do texto, identificar pontos-chave do texto, isto é, como o emissor se projeta, quais referências usa, como se dirige ao receptor, que linguagem é empregada, que dimensões ressalta e que argumentos usa, identificar nos dados padrões entre os pontos-chave e diferenças em relação ao tipo de receptor, descrever minuciosamente os elementos identificados, voltar ao problema de investigação, verificar se os resultados obtidos confirmam ou não as teorias revisadas e que deram suporte à investigação, faz-se uma conclusão e elabora a redação final apresentando a pesquisa que foi realizada.

As entrelinhas são muito importantes de serem verificadas na análise do discurso. As intenções não verbalizadas, mas inseridas na prática discursiva devem ser levadas em conta. Por isso, os textos analisados devem ser completos, incluindo a situação em que ele foi realizado, os objetivos para o qual prestou o texto e como foi recebido o texto.

Por exemplo, podemos analisar correspondências para saber que tipo de interação existiu entre os correspondentes. Podemos eleger a justiça como tema e o objetivo é saber o que os correspondentes consideram ser um tratamento justo. Em duas cartas em que o pai de um filho que se acidentou e não pode mais pagar o seguro-saúde entende que o justo seria o cancelamento da dívida devido as suas necessidades pessoais, ressaltando que não foi bem atendida em um hospital. Sendo este o objetivo de seu discurso: o cancelamento da dívida. Pode-se chegar a uma conclusão de que os autores enfatizam em seus discursos em relação a justiça a dimensão pessoal de seus problemas. O que é importante é a pessoa define o discurso do pai. Em seguida, podemos analisar a resposta da empresa de de seguro-saúde que trata o sofrimento do pai como um relato de problemas que não está ligado ao compromisso assumido antes. A empresa guiou-se por regras claras: compromisso assumido deve ser cumprido. E comunicou que ao hospital foi descredenciado. A padronização é a tônica da resposta da empresa. O tratamento é impessoal. O pai é visto como cliente e não como pessoa. E é desta forma que a empresa entende estar dando um tratamento justo. O modelo pessoa-pessoa se confronta com um modelo não-pessoa - não-pessoa, para o qual a saúde é um negócio. Evidentemente, tais praticas discursivas fazem parte do processo de exclusão das classes menos favorecidas de um tratamento digno pelos planos de saúde.

Outro exemplo, é a pesquisa de estilos discursivos de lideranças que revelaram quatro tipos: autocentrado, o consultivo, o instrutivo e o colaborativo. O tema é liderança e a pesquisa foi feita analisando gravações de sete reuniões, além disto, notas sobre o contexto foram feitas a parte. antes de cada reunião foi feito entrevistas informais com os lideres. Na literatura buscou-se definir o que caracteriza cada tipo de liderança. O autocentrado prioriza os significados que ele constrói e sua voz soa individual e professoral, com estratégia de ênfase no tom da voz e uso de advérbios de intensidade e atenuações com hesitações e uso de diminutivos. O consultivo usa geralmente a estratégia de perguntas e consultas para levantar problemas e propor soluções. O instrutivo usa outra estratégia, lembrando sempre a sua experiência, ele diz sempre o que deve ser feito. O colaborativo é aquele que reconhece que o outro é também construtor de significados e o resultado da interação são frutos de uma voz coletiva. Geralmente, começa-se perguntar quais as necessidades das pessoas e o líder vai informando os meios que a instituição dispõe. O que vai ser implementado é resultado da colaboração e do consentimentos dos participantes da conversa. O líder participa dizendo quais são as possibilidades de realização do que se está pensando e diz sobre sua preferência. Mesmo assim, aceita argumentos razoáveis que apontam meios e modos que não foram trazidos por ele.

Conclui-se que cada estilo revela como se exerce o poder por meio de habilidades comunicativas e como se usa as estratégias discursivas.

Luiz Henrique Eiterer

Notas:

1 A pedido do Daniel Lima (Carolina) de Brasília e Maria Costa de Tocantins, ver comentários e, aproveitando para agradecê-los, apresento a referência do texto ( os erros de ortografia ainda continuam, em breve faço uma correção):
VERGARA, Sylvia Constant. Método de Pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas, 2005, p. 25-36.

2PUTNAM, Linda; FAIRHURST, Gail. Discourse analysis in organizations: issues and concerns. In: Jablin, F. M.; Putnam, L. (Ed.) The new handbook of organizational communication: advances in theory, research and methods. Thousand Oaks: Sage, 2001. Cf. VERGARA, Sylvia Constant. Op. cit.

3MAINGUENEAU, Dominique. Termos-chave da análise do discurso. Belo Horizonte: EDUFMG, 1998. Cf. VERGARA, Sylvia Constant. Op. cit.

4BALLALAI, Roberto. Notas e subsídios para a análise do discurso (uma contribuição à leitura do discurso da Administração). Fórum Educacional. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 13 (1-2), p. 56-89, fev./maio 1989. Cf. VERGARA, Sylvia Constant. Op. cit.

5GILL, Rosalind. Análise do discurso. In: BAUER, Martin W.; GASKELL, George (ed.) Pesquisa quantitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002. Cf. VERGARA, Sylvia Constant. Op. cit.

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