Reescrevendo o burro

Todos nós sabemos, e o pessoal da fazenda sempre conta, que o burro é mais sensível do que o cavalo, pois, ele pressente o perigo de longe, por isso é que ele empaca de vez em quando. O burro anda sim e muito. O burro anda e vai para tudo que é canto, mas se encontra um obstáculo natural ou construído, um buraco, uma cobra ou um famoso mata-burro, não tem ninguém que tira ele do lugar. Ele não anda mesmo. O burro não se arrisca de jeito nenhum. Ele é conservador. Se tem alguma idéia fixa, esta idéia é de se proteger de todo jeito.

A metáfora do burro é muito boa. Mas, não é verdade que o burro não muda, ele só não muda se perceber que há algum perigo para ele. O burro parece poder ver o perigo melhor que muita gente e diante da sensação de perigo ele não pensa, ele permanece onde está e com que está.

Por isso é verdade que mesmo aqueles que acreditam nas mudanças e contam histórias podem ser burros. Esses burros são chamados de historicistas. Eles acreditam que só a história pode dá conta de explicar a vida humana. Desse modo, também é verdade que não há só um tipo de burro. Existe aqueles que acreditam que a história é ciclica, linear, helicoidal ou dialética. Mas, todos elegem o método histórico como importante e não dão importância nenhuma para as teorias. Eles são muitos, porém, os mais famosos hoje em dia são os fascistas, os nazistas e os marxistas. Eles são burros porque pensam em andar somente com uma idéia fixa na cabeça, a de se proteger a todo custo. Mas, não é só eles que pensam assim não, cristãos e outros religiosos fundamentalistas e liberais ultra-conservadores também pensam do mesmo jeito. E, estava esquecendo, muitos dos burros listados acima querem ser funcionários públicos. Eles andam para tudo que é lado, mas só pensam em se proteger. Não se arriscam nunca.

Convenhamos, temos que dá a mão a palmatória, uma pequena dose de burrice é importante ter para garantir a nossa sobrevivência. Não dá para viver sem reconhecer uma certa regularidade, uma certa duração. Temos que ter uma certa previsão do que podemos encontrar logo ali na frente. Mas, o máximo que se pode dizer é: as condições que existiam ontem; esperamos que elas continuem inalteradas durante algum tempo. No entanto, é preciso admitir que tudo muda a qualquer hora. Não tem jeito, é preciso reconhecer a história.

Logo, burrice em dose muito elevada impede que a gente veja o mundo passar. Porque o mundo não é burro. O mundo muda sem se importar com nada e com ninguém. Sem história a teoria se tornar uma doutrina exclusiva e completa e a lei se torna ordem absoluta. Não dá para não perceber que essa é uma teoria que acredita poder sobreviver ao tempo: uma teoria sobre a relação entre História e Teoria.

Assim sendo, para não ser burro não adianta só analisar caso a caso, se você também não muda de teoria. Para não ser burro é preciso mudar de idéia em cada caso. Para não ser burro não adianta eleger uma teoria e sair analisando caso a caso a partir somente desta teoria. Devemos perceber se a teoria tambem é boa para analisar o caso. Se não, não adianta, os burros vão dizer com razão que não são burros, bastando para isso dizer e concordar que vão passar a analisar caso a caso com a sua teoria preferida. É claro, se protegendo. Tornando a sua teoria ainda mais exclusiva e mais completa e a ordem passa a ser absoluta. E, ba-bau o caos.

Pois é a maior verdade o que o Paulo Ghiraldelli Jr (O burro existe, você é burro?, 07/07/2008) disse "[...] os burros tem o poder de se criarem sem ter o poder de se destruírem". Mas, não podemos esquecer que esta é a sua virtude. Conseqüentemente, não é chicoteando, empurrando, enganando e criando cercas e mata-burros que vamos acabar com os burros ou impedi-los de freqüentar palácios e universidades. Sempre terá uma cerca arrebentada por onde o burro poderá passar. Podemos também aprender com os burros, quando devemos ser burros, o quanto nós devemos nos proteger e quando não é preciso ser burro. Mas, antes de tudo, temos é de convencer os habitantes dos palácios, das universidades e das igrejas que o minimo de ordem é necessário, mas que o bom mesmo é viver o caos. Saber acolher o que ele nos apresenta de novo, de perigoso e instigador. Que é bom não ser burro. Mostrar que a ordem é o que já sabemos, mas o caos representa o que não sabemos e podemos aprender. Nada de querer voltar com cercas e mata-burros nas cidades. Isso é pensamento de gente burra ou, no mínimo, conviveu tanto com os burros, que sabe muito bem como os burros pensam.
Luiz H. Eiterer
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