Pier Paolo Pasolini, Teorema, 1968 e o problema da razão.

Qualquer um pode buscar a verdade. Não há como se opor a isso. Qualquer um tem o direito de proferir um argumento lógico. O que nos leva, então, a querer às vezes se afastar de determinadas pessoas? Isto não parece ser lógico. A preocupação com a reputação das pessoas definitivamente não tem nada haver com a busca pela verdade.

Esta preocupação com a reputação está ligado com algo que nem a direita nem a esquerda compreendem bem - por isso, não compreenderam Pasolini em 1968. Assim podemos interpretar o filme Teorema: esta preocupação com a reputação representa a irreversível perda de identidade da classe média, um processo de despersonalização, quando se inicia uma consciência que só pode revelar dramaticamente o "vácuo", a impotência, a sua "não-existência" que constituem a sua própria essência. Uma perda de identidade, aliás, que não oferece nenhuma razão para resgatá-la, mas que só cria em torno dela um "deserto", um nada. Esse é o seu destino. Por que isto acontece? A resposta é porque a maioria dos bem educados nas escolas e nas igrejas vão sempre precisar entrar em contato com um "outro" totalmente estranho à certezas pré-fabricadas da lógica dominante: o seu teorema. Este outro é o pobre. O favelado. O excluído. O crente não intelectualizado. O infame. Por isso, o medo que se tem deles. A existência deles é sempre um escândalo. O que se pensa em fazer? Acabar com eles. Seja "educando-os" ou segregando-os, ou eliminando-os. Isso são apenas estágios de um mesmo desejo de afastar aqueles que os assustam, sem, ao menos, saber a razão disso. Diante deles, desses infames, a classe média se coloca como se fosse divina. Ela não precisa mais da razão, por ser, ela própria, a razão. Assim é que ela se vê.

Para nos tornamos divinos, livres, como queria Jesus Cristo interpretado por Dostoievsky em Irmãos Karamazov, no conto "O grande Inquisidor", não podemos querer argumentos lógicos no evangelho e nem em lugar nenhum. Entretanto, se caminhamos neste sentido, logo percebemos que toda fé, todo tomar por verdadeiro é necessariamente falso, porque um "mundo verdadeiro" não existe de maneira nenhuma. O que existe é o que você pensa. Ou seja, a origem de uma ilusão perspectiva está em nós (nós é que temos constantemente a necessidade de um mundo restrito, abreviado, simplificado, verdadeiro e lógico). Neste caso, a medida da força, que aplicamos no outro, é constituída pelo ponto até onde podemos admitir, sem perecermos, sem enlouquecermos, sem ficarmos malucos, a ilusão, a necessidade da mentira. Neste caso, a negação de um mundo verdadeiro, de um ser, poderia resultar em um modo de pensar divino. Só assim poderíamos abandonar a vontade de crer ou de querer a verdade. E não precisar mais da razão.

Mas, até onde podemos assumir um Dionísio sem Apolo. Como podemos nos abdicar da lógica sem enlouquecer. O pensamento concreto, histórico, ontológico, não sabemos, não pode abrir mão de um certo congelamento. Querer a verdade a todo custo, impondo-a, nos leva ao nada, mostrando que tudo é vão. Querer a mentira sem nenhum constrangimento é assumir o nada como ausência completa de sentido. Nos resta o quê? É impossível querer renunciar as contradições, as tensões, as lutas entre a verdade e a mentira sem se tornar um louco. Portanto, amar ou fazer qualquer outra coisa sem nenhuma lógica é loucura ou só possível para os deuses. Ou para aqueles que se acham deuses. Não amar é se sucumbir inteiramente a mentira.
O filme do Pasolini apresenta esta reflexão e faz com que pensemos como podemos viver melhor como humanos que somos e não simplesmente como deuses. Precisamos da razão, mas, para termos razão é preciso admitir que nem sempre temos a razão. Não somos a razão. Acho que é isso.
Luiz H. Eiterer
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