Hierarquizar e diferenciar. Breves reflexões sobre a avaliação da produção científica.

Texto elaborado para XII Mostra PUC-Rio - 2008 - Os desafios da inclusão do conhecimento numa economia globalizada

De: Esther Maria de Magalhães Arantes

Professora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio

Em artigo intitulado “Sobre a sociedade da competição - o totalitarismo sorrateiro” 1, José Luiz Quadros de Magalhães nos lembra o quanto somos cotidianamente estimulados para a competição.

Desaprendemos a conviver com a diferença. Na sociedade de consumo contemporânea somos levados a escolher sempre “o melhor”. Nos programas de televisão não se escuta simplesmente uma música. Este prazer de ouvir uma música vem acompanhado quase sempre com a escolha do melhor cantor, a melhor música, o melhor calouro. A competição é alimentada em todo momento, em todas as atividades. Na escola é escolhido o melhor aluno, a melhor composição, a melhor monografia, a melhor nota em cada matéria. Esta competição permanente nos leva inconscientemente a reprodução da lógica do melhor em quase tudo(...) Não é necessário mencionar que o que é melhor para um, muitas vezes, não o é para o outro e é essa impossibilidade momentânea de construir um consenso sobre o que é melhor que ainda nos salva do totalitarismo. O problema será o dia quando todos acordarem sobre o que é o melhor” ( Magalhães, 2008:1)

Lembrando-nos o quanto este “melhor” nas avaliações acadêmicas encontra-se atrelado ao cumprimento de regras e formatos estabelecidos que em nada diz respeito à qualidade, o autor aponta a desqualificação que pode advir para o docente da não observância de tais regras e formatos.

“Este ensaio publicado neste espaço tem que se conformar aos padrões do que é melhor. Tem que ter uma introdução, por isto escrevi aí em cima INTRODUÇÃO, um desenvolvimento, e uma conclusão. Em muitas publicações exige-se um resumo, um abstract, palavras chave, bibliografia, seguir as regras da ABNT, ser escrito em “Times New Roman”, citar outros autores e repetir o que eles disseram, etc, etc, etc... E se não citar um monte de autores considerados os melhores pensadores, aí acabou tudo. Não vale nada”. (idem, idem)

No artigo “A corrida para o Lattes” 2, o professor Antônio Ozaí da Silva nos diz o quanto o produtivismo instalado em nossas universidades e registrado no Currículo Lattes passou a ser uma medida de sucesso e competência.

O currículo deixa de refletir as vicissitudes da vida e passa a ser a medida do sucesso. E este deve ser conquistado a qualquer preço. É uma corrida maluca, um vale tudo que se traduz no Currículo Lattes. Se você não tem o Lattes está socialmente morto, não existe.

(...) A necessidade de engordar o Currículo Lattes está vinculada ao discurso da competência (...) isso significa que todos estamos submetidos a exigências que não ousamos questionar, já que, por mais radicais que sejamos, delas dependem o nosso sucesso. (...) Como não buscar a competência fundada em mecanismos de publicação e de participação interna e externa, quando se sabe que a carreira universitária, do mais simples aluno ao mais renomado pesquisador e docente, depende da quantificação de tudo o que ele faz na vida universitária? Tudo é contado, tudo é pontuado. Como no mercado, todas as atitudes são avaliadas e tem seu valor de troca quantificado em ‘x pontos’. Não importa onde você publicou, muito menos se o que você publicou tem importância e se terá leitores. Também não importam quais as estratégias que você utilizou para publicar”. (Silva, 2008:1)

Outro professor universitário, Francisco Giovanni David Vieira3, também critica os usos que fazemos do Lattes - que, embora criado para a formação de um banco de dados sobre a pesquisa científica no Brasil, vem servindo a outros propósitos. Em sua opinião, o Lattes vem sendo utilizado como

(...) uma espécie de passaporte acadêmico às avessas: o que vale na vida acadêmica não é o que se publica, mas sim a quantidade do que se publica! (...) Essa lógica, a um só tempo equivocada e perversa, tem seu início ainda quando o docente se depara com a realização do seu curso de doutorado. Um docente sem doutorado é um docente sem cidadania. É alguém que até pode habitar o mundo da academia, mas é invisível, pois não é reconhecido pelos próprios pares e muito menos pelas agências de fomento à pesquisa. É alguém que até pode ter uma série de deveres, vinculados à docência, mas simplesmente não tem direitos: não tem direito de concorrer a editais das agências, não tem direito de lecionar na pós-graduação stricto sensu e, no limite, sequer tem direito de concorrer a bolsas de iniciação científica em instituições que possuem programas de pós-graduação já consolidados”. (Vieira, 2008:1)

Os critérios de avaliação dos periódicos e revistas também são objetos das mesmas críticas, na medida em que as publicações em revistas e periódicos de grande circulação e impacto social, e mesmo a publicação de livros, não são consideradas, valorizando-se apenas as publicações em revistas indexadas e restritas aos chamados pares. Neste sentido, as publicações que se voltam para as comunidades, os movimentos sociais, o poder público, a sociedade, em geral, não são valorizadas como tendo mérito acadêmico e científico.

Publique-se qualquer coisa, de qualquer jeito, de qualquer modo, em qualquer periódico. A CAPES até criou um sistema de avaliação para publicações: o QUALIS. Esse sistema que a princípio foi criado como uma tentativa de classificar os periódicos de acordo com sua possível relevância, apresenta consideráveis limitações e não contempla algumas publicações que são relevantes. (...) O mecanismo de indexador de impacto da publicação, que é mais completo, porém também mais complexo, não é usado como forma de expressar a possível contribuição de uma publicação. Como conseqüência, muitas revistas são criadas por muitas instituições. Cada uma precisa criar o seu próprio periódico, garantir que ele seja classificado no QUALIS da CAPES e abrir um espaço para a publicação dos seus docentes”. (Idem, idem)

Em artigo anterior4 já me posicionei sobre o tema, mostrando como os critérios de avaliação da Pós-Graduação, com ênfase quase exclusiva na produção de artigos em revistas indexados, tanto desqualifica outros tipos de publicações, como o livro, como leva à desvalorização do educador.

Recentemente, em encontro nacional de Pós-Graduação, fomos informados das novas regras para as revistas. Juntamente com outros colegas das universidades brasileiras, responsáveis pelas publicações das revistas, ouvimos os nossos representantes na CAPES e CNPQ repetirem diversas vezes que os objetivos das novas regras eram “hierarquizar” e “diferenciar”. Contestados por diversos presentes - não por todos, a bem da verdade - uma vez que as mudanças pretendidas não diziam respeito à qualidade mas sim à quantidade sendo que, no entanto, poderiam representar a morte de muitas revistas pela imposição de maior gasto e outras dificuldades, a resposta foi que os critérios até então vigentes não mais diferenciavam as revistas, já que a maioria delas havia obtido a classificação A Nacional. Assim sendo, tal classificação nada mais representava, tornando-se necessário modificações nas regras para permitir nova “diferenciação” e “hierarquização”. O mais intrigante foi que, na nova escala proposta, não se sabia exatamente qual era o critério para definir “as melhores”, as que deveriam ser avaliadas como sendo as revistas “top, the top, the top”, conforme alguém repetia.

Para finalizar, permita-me o leitor uma outra citação, tomada de empréstimo a Jeanne Marie Gagnebin, em “O método desviante”5, quando propõe aos professores de Filosofia e afins, não temer os desvios e errâncias, não ter medo de “perder tempo”, não se levar “tão a sério”, não querer estar o tempo todo “na moda”, concluindo, finalmente, que não devemos nos dobrar

(...)aos imperativos mercantis-intelectuais da “produção” de “papers” e da contagem de pontos nos inúmeros “curricula” e relatórios administrativos-acadêmicos: se tiver que contar “pontos”, conte para que lhe deixem em paz, mas não confunda isso com trabalho intelectual ou mesmo espiritual. Já que temos o privilégio de lecionar filosofia, isto é, uma coisa de cuja utilidade sempre se duvidou, vamos aproveitar esse grande privilégio (de classe, de profissão, de tempo livre) e solapar alguns imperativos ditos categóricos e racionais: contra a pressa, a produtividade, a concorrência, a previsibilidade, a especialização custe o que custar, as certezas e as imposições. Podemos exercer, treinar, mesmo numa sala de aula, sim, pequenas táticas de solapamento, exercícios de invenção séria e alegre, exercícios de paciência, de lentidão, de gratuidade, de atenção, de angústia assumida, de dúvida, enfim, exercícios de solidariedade e de resistência”.

Bibliografia:

Arantes, E.; Lobo, L.; Galli,T. Pensar: a que será que se destina? Diferentes tempos de uma reflexão sobre a morte anunciada do educador. Psicologia e Sociedade/ Revista da Associação Brasileira de Psicologia Social, vol. 16, nº1, 2004 – Edição Especial. São Paulo: ABRAPSO

Gagnebin, J. M. O. - Método Desviante. In: Oficina da Filosofia. http://oficinadefilosofia.wordpress.com/2007/02/21/o-metodo-desviante-por-jeanne-marie-gagnebin/

Magalhães, J. Q. Sobre a sociedade da competição - o totalitarismo sorrateiro. In: www.ceede.com.br Silva, A. O. A corrida para o Lattes. Revista Espaço Acadêmico n. 46, março de 2005. disponível: http://www.espacoacademico.com.br

Vieira, F. G. D., Latindo atrás do Lattes”. Revista Espaço Acadêmico n.73 – julho/2007. http://www.espacoacademico.com.br

Notas:

1 Artigo de José Luiz Quadros de Magalhães, datado de 11 de julho de 2008 e recebido por correio eletrônico, intitulado “Sobre a sociedade da competição - o totalitarismo sorrateiro”, p. 1 Disponível em: www.ceede.com.br

2 Antônio Ozaí da Silva é docente da Universidade Estadual de Maringá. Revista Espaço Acadêmico n. 46, março de 2005.

http://www.espacoacademico.com.br

3 Francisco Giovanni David Vieira, também docente da Universidade Estadual de Maringá, autor do artigo intitulado “Latindo atrás do Lattes”, publicado na Revista Espaço Acadêmico n.73 – julho/2007.

4 Arantes, E.; Lobo, L.; Galli, T.; Pensar: a que será que se destina? Diferentes tempos de uma reflexão sobre a morte anunciada do educador. Psicologia e Sociedade/Revista da Associação Brasileira de Psicologia Social, vol. 16, n. 1 – Edição Especial, 2004. São Paulo: ABRAPSO.

5Texto recebido por correio eletrônico, publicado em 3/12/2006. Jeanne Marie Gagnebin é professora de filosofia na PUC/SP e de teoria literária na Unicamp, autora, entre outros, de "História e Narração em Walter Benjamin" (Perspectiva, 1994) e de "Sete Aulas sobre Linguagem, Memória e História" (Imago, 1997). O texto “O Método Desviante”’ está disponível no sítio “Oficina da Filosofia”. (http://oficinadefilosofia.wordpress.com/2007/02/21/o-metodo-desviante-por-jeanne-marie-gagnebin/

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