O sujeito pós-moderno: Stuart Hall, 1997

Acreditava-se, no projeto da modernidade, que a identidade preenchia o espaço entre o mundo pessoal e o mundo público. Acreditava-se em uma troca entre os sentimentos subjetivos e o mundo social e cultural, cujo resultado seria a estabilidade dos sujeitos e da cultura, tornando-os cada vez mais unificados e previsíveis. O projeto da modernidade era se opor a tradição, propondo a coletivização e a universalização de valores previamente estipulados como sendo superiores. A certeza e uma entusiástica confiança na ordem dominavam a época moderna, onde tudo era passível de controle e regulamentação.

"Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas coisas que agora estão 'mudando'. O sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. Correspondentemente, as identidades que acompanham as paisagens sociais 'lá fora' e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as 'necessidades' objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais tornou-se mais provisório, variável e problemático.

Esse processo produz o sujeito pós-moderno, complexizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma 'celebração móvel'; formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas no redor de um 'Eu' coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas . Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora 'narrativa do eu'. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, em cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente." (Stuart Hall, A identidade Cultural da pós-modernidade, 10 ed., [1997], p. 12-13) .

Como se vê, o projeto da pós-modernidade é contrário a coletivização e a postulação de um plano superior, e propõe a desregulamentação das relações. A incerteza e a desconfiança governam a época. Num mundo em constante movimento, o medo dos estranhos domina a vida das pessoas. Ao mesmo tempo aqueles que não são capazes de vestir e despir identidades e caçar sensações e novas experiências não são mais considerados nesse mundo. Vive-se o dilema de prezar a incerteza, mas sem se sentir perdido.

Deve-se viver o projeto. Obriga-se a caminhar sem querer saber qual é o objetivo e sem querer se fixar. Entretanto, mesmo o desejo de querer se fixar na forma extrema definida de incerteza e descompromisso e desrespeito a qualquer lei não pode ser aceito pelo projeto pós-moderno. O entusiasta da pós-modernidade é o seu maior inimigo, pois, deseja acabar com a origem da angústia de se sentir perdido e de viver uma vida sem sentido, elevando o sem sentido , o sem nada, o sem desejo, o sem lei como objetivos e metas a serem alcançadas. Aliás, diria o sujeito pós-moderno, é melhor nada (a modernidade) do que isso.
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