Não se pode ser sem rebeldia

Este é o título de uma entrevista que Paulo Freire concedeu a Ana Cecília Sucupira para a revista Pais & Teens, n.3, p.12-15, em fevereiro de 1997. Este texto é baseado nesta entrevista.
A escola é vista pelas crianças de hoje e, principalmente, para os adolescentes como um espaço formado por pessoas que não acreditam neles. Ou eles são tidos como fracos demais, indiferentes ou, ao contrário, rebeldes demais. Mas, eles se tornam rebeldes porque os adultos não confiam neles e os enxergam sem expressão alguma. Por isto, é certo dizer que a rebeldia é um processo de autonomia, isto quer dizer, que não é possível ser sem rebeldia. E, não se dá sentido criador ao ato rebelde ameaçando e castigando o rebelde, interiorizando-lhe o medo, propiciando criar apenas docilidade e silêncio. E silenciados não mudam o mundo. É preciso que o rebelde se assuma e mostre o seu ato como um compromisso, mostre para todo mundo que tomou uma posição. É preciso que esta posição anunciada pelo rebelde seja levada em conta. Assim sendo, o rebelde vai se eticizando e, portanto, passa a ser um participante e um transformador do mundo.
Neste sentido é que a escola, não por culpa somente dela, mas de toda a sociedade, não cumpre o seu papel. Pois, optou-se pelo silêncio e silenciar, primeiro, os educandos e depois os educadores que se tornam rebeldes, que ousam ser seres autônomos. Em nossa sociedade há um desrespeito constante, com exceção de alguns pequenos momentos de nossa história, à educação no Brasil, aos educadores e às educadoras.
A culpa também é da sociedade política brasileira, que ainda permite que professores trabalhem com salários muito baixos, em situações muito precárias de trabalho, sem direitos e garantias sociais. Vivendo em locais deseducativos, indignos e desumanos. Fazendo prevalecer o medo.
Os nossos gestores, prefeitos, governadores, secretários e diretores ainda teimam em dizer que "os professores têm razão, ganham muito mal, estão exaustos, mas eu não tenho dinheiro" e ainda continuam dizendo ao mesmo tempo " a educação é nossa prioridade". Soa como mentira, este discurso, não é?
O sonho de todos nós é poder ver o dia que nenhum governador, prefeito, secretário, diretor ou qualquer outro gestor possa mais fazer este discurso. Que este discurso se torne tão imoral quanto este que, por exemplo, um governador não ousaria proferir: "pessoal, vou deixar meus pais e seus pais morrerem porque não tenho dinheiro". Sonhamos em que este discurso não seja mais possível de ser proferido. Sonhamos com o dia que ninguém poderá dizer que "as professoras têm razão, mas eu não tenho dinheiro".
Acho que a gente deve brigar para ver se respeita-se, neste país, educação, saúde, compromissos e cultura. Porque do jeito que as coisas vão a gente corre o risco de se entregar à decepção e à desesperança.
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