Vida miserável em Juiz de Fora

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Periferia de Juiz de Fora esconde vida miserável

Ana Cláudia Barros
e Jacqueline Silva
REPÓRTERES

A antiga Manchester Mineira realmente esconde em suas periferias algo de Maputo, capital de Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, conforme comparação feita pelo secretário de Assistência Social, Marcelo Garcia. Para conhecer de perto a realidade por trás dos números apresentados pelo Mapa da Exclusão Social, divulgado em fevereiro, a Tribuna visitou alguns dos 13 pontos considerados mais miseráveis no município e encontrou pessoas que vivem em barracos improvisados, sem banheiro, com comida escassa e sem perspectivas de mudanças. Algumas sobrevivem com renda per capita de R$ 0,85/dia, quantia insuficiente até mesmo para pagar uma passagem de ônibus, cujo valor é de R$ 1,55. Este é o caso da família da desempregada P., 31 anos, que mora com o marido e dois filhos pequenos em um barraco da Vila Fortaleza, na região de Linhares, Zona Leste. Para muitos habitantes destes bolsões de pobreza, a alternativa é contar com a solidariedade de instituições e vizinhos, enquanto outros optam por buscar a sobrevivência em atividades informais na região central. Entre eles, está o desempregado J., 65, morador da comunidade Ponte Nova, área de invasão na Zona Norte, que desce para o Centro pelo menos quatro vezes por semana, para atuar como guardador de carros e pedinte próximo à Catedral Metropolitana. Há 17 anos sem emprego fixo, ele conta que essas foram as únicas formas que encontrou para garantir seu sustento e o de sua companheira, também sem trabalho fixo. No barraco de madeirite onde moram, a despensa está vazia e, nas panelas sobre o fogão, há apenas sobras de sopa de macarrão e um pouco de taioba, conseguida em um terreno nos arredores. “Tem dias que não tem nada para a gente comer. As pessoas criticam porque peço dinheiro e comida, mas, se eu não pedir, não tem como viver.”

J. está entre os cerca de 8% da população do município que vivem com menos de US$ 1/dia (R$ 2,34), conforme apontou o mapa desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social (SAS). O levantamento mostra que 41.280 pessoas estão abaixo da linha de pobreza em Juiz de Fora. “Os números assustam e incomodam. A exclusão já não se prende à periferia, ela chega até o Centro diariamente, por meio de pedintes, vendedores nos sinais e moradores de rua. Todos nós convivemos com a exclusão, e a tendência é de que ela aumente”, avalia o economista Carlos Henrique Paixão.

Alerta
Segundo ele, o mapeamento é importante porque aponta as regiões mais vulneráveis, que merecem atenção prioritária. “O estudo é um alerta. A partir dele, a Municipalidade deve traçar ações para interferir na consequência, que é a pobreza, e nas causas dessa exclusão.” Essa também é a opinião do sociólogo e professor da UFJF José Alcides Figueiredo Santos. “Não adianta só implantar programas para minimizar as consequências, sem agir nos fatores determinantes desse quadro.”

Os dois especialistas defendem a ampliação de projetos de educação, qualificação de mão de obra e inserção no mercado de trabalho, inclusive com sensibilização do empresariado.

"A exclusão já não se prende à periferia, ela chega até o Centro diariamente, por meio de pedintes, vendedores nos sinais e moradores de rua."
Carlos Henrique Paixão, economista

"Até para procurar trabalho é complicado, porque quase ninguém tem condições de pagar passagem."
Ronaldo Antônio de Paula, 42, líder comunitário do Ponte Nova

"Sozinha, às vezes, a vontade é de ‘arriar o saco’, mas não dá para parar."
J., 66 anos, moradora do Ponte Nova

Mãe chora ao ver bebê passando fome
Moradora do Ponte Nova, L., 22, não contém as lágrimas ao contar que pedia comida de casa em casa para alimentar os filhos, uma menina de 3 anos e um bebê de 6 meses. “Falaram que poderia perder minhas crianças se eu continuasse. Parei, mas agora não tenho como alimentá-las. Quando não ganho um pouco de leite de um vizinho, faço mamadeira com água e fubá para o bebê. É triste vê-lo chorando de fome.”

Apesar de ter nascido em setembro passado, o menino ainda não tem registro. “O pai dele não tem documentos. Está difícil tirar, porque não temos nem endereço reconhecido”, afirma, referindo-se à construção de madeirite e plástico à beira do Rio Paraibuna. A passagem de acesso ao barraco está cedendo, aumentando o risco para a filha mais velha, que brinca no terreiro de terra batida, alheia à precariedade do local.

As dificuldades são conhecidas de perto pelo aposentado Ronaldo Antônio de Paula, 42, que é uma espécie de líder comunitário da Ponte Nova. “Aqui temos cerca de 55 famílias, a maioria sem emprego formal. As crianças estudam no Ponte Preta, mas falta creche para as menores. Até para procurar trabalho é complicado, porque quase ninguém tem condições de pagar passagem. Quem precisa de tratamento médico na cidade ou aqui mesmo na Zona Norte também encontra dificuldade de chegar até a unidade de atendimento.”

Fragilidade
Segundo Ronaldo, uma rede de solidariedade entre os próprios moradores tem impedido situações mais graves. “Todos somos pobres, mas a gente divide o que tem, quando tem.” Além disso, entidades assistenciais e igrejas têm ajudado, entregando cestas básicas, roupas e móveis. “Se não fosse essa ajuda, a gente não tinha como seguir. Sozinha, às vezes, a vontade é de ‘arriar o saco’, mas não dá para parar...”, desabafa outra moradora da comunidade, J., 66.

A precariedade é a marca das casas, e a fragilidade fica ainda mais evidente em dias de chuva. “Quando chove, todo mundo faz vigília. A gente bota o relógio para despertar de meia em meia hora e vai se revezando para ‘tomar conta do rio", descreve outra líder da comunidade, a doméstica Wanda Paiva, 32, referindo-se ao nível do curso d’água que ameaça as residências. Sem coleta de lixo e calçamento, os moradores também ficam sujeitos a doenças.

Falta de banheiro compromete a dignidade
Ter um vaso sanitário está entre os maiores anseios do desempregado E., 47 anos. Ex-metalúrgico e trocador de ônibus, ele estudou até a oitava série, mas está fora do mercado formal há três anos. Doente e sem qualquer fonte de renda, sobrevive da caridade. “Não tenho força para trabalhar, porque estou com problema nas pernas, mas ainda não consegui me aposentar. Quem me ajuda são os vizinhos e a igreja, que doa cesta básica.”

E. mora na comunidade Ponte Nova há seis anos, desde que seu barraco anterior foi carregado durante uma enchente. Quando tem mantimentos, ele cozinha em um fogão à lenha improvisado na área externa. Sem banheiro, usa o mato nos fundos do terreno para suas necessidades fisiológicas. “Não quero sair daqui, quero só melhorar minhas condições. Preciso, principalmente, de um vaso sanitário.”

Situação semelhante é vivida pela desempregada P., 31, que mora com a família na Vila Fortaleza. “A gente faz tudo no saco plástico e joga no mato”, comenta, acrescentando que não há água encanada. Uma mina, nos arredores, fornece o líquido para higiene pessoal e limpeza, além de servir para cozinhar, beber e lavar roupa, já que o acesso do caminhão-pipa é dificultado pela falta de calçamento. Com tanta dificuldade, P. se apega à fé. Na parte externa do barraco, lê-se a inscrição: “Deus esteja nesta casa.”

Conforme a ONU, a instalação de banheiros e o fornecimento de água potável são as maneiras mais seguras de reduzir a pobreza e melhorar a saúde pública. Conforme a instituição, 10% das moléstias do mundo são atribuídas ao consumo de água insalubre, à falta de banheiro e de higiene.

Bolsa Família
Um dos principais indicativos da exclusão social do município é o grande número de pessoas que dependem da Bolsa Família. Em Juiz de Fora, o programa do Governo federal atende cerca de 61 mil beneficiários, mas o total de cidadãos que se inclui no perfil de renda estabelecido pelo programa (até R$ 137 per capita por mês) é superior, conforme dados da Secretaria de Assistência Social.

Para a família da desempregada A., 18 anos, o Bolsa Família é a única fonte de renda. Grávida de dois meses e mãe de um menino com 3 anos, ela conta que sua situação piorou após a morte do marido em janeiro. “Apesar de não ter emprego fixo, ele fazia bicos e conseguia algum dinheiro. Os R$ 82 do Bolsa Família são meu único recurso, mas não dá para viver. Eu não posso trabalhar, porque não tenho com quem deixar meu filho. Conto com a ajuda dos vizinhos.”

A renda per capita da família é de R$ 1,36/dia, valor inferior até mesmo ao observado em Moçambique. Na nação africana, cerca de 70% da população sobrevivem com o equivalente a R$ 1,90/dia.

Natural de Itabuna (BA), A. se mudou há dois anos para Juiz de Fora, com a esperança de melhorar de vida. No barraco, sem banheiro e sem pia no Ponte Preta, há somente um colchão empoeirado, um armário e uma TV, tudo doado. “Queria uma casa com banheiro, não posso nem dar um banho quente no meu menino. Para fazer isso, teria que gastar gás, mas o botijão está caro.”

PJF promete atuação 'cirúrgica'
Com as áreas onde há maior incidência de exclusão detectadas, a Secretaria de Assistência Social (SAS) se prepara para uma atuação “cirúrgica”. A meta, conforme o titular da pasta, Marcelo Garcia, é atender as demandas específicas de cada bairro. “O mapa nos apontou onde estão os problemas. O próximo passo é identificá-los. Nossa intenção é entrar nos lugares e verificar quais são os tipos de vulnerabilidade. Algumas ações poderão ser realizadas a curto prazo; outras, a longo, e dependem dos governos estadual e federal. Estamos utilizando uma estratégia muito discutida e planejada, que é o Agenda Família”, afirma, referindo-se ao programa municipal, considerado complemento do Bolsa Família. A expectativa, segundo Garcia, é que o programa seja implantado, até o final do primeiro semestre, nas 13 localidades indicadas no mapeamento.

Dom Bosco
O primeiro bairro a receber intervenção da SAS foi o Dom Bosco, na Cidade Alta, onde 572 pessoas de 138 famílias sobrevivem abaixo da linha de pobreza. “Quinze jovens da comunidade, com mais de 18 anos, estão realizando um mutirão de limpeza, porque percebemos que é comum a disposição irregular de lixo. O trabalho será remunerado. Ao mesmo tempo, entraremos com um programa de educação ambiental. De imediato, compramos filtros, porque a água consumida por alguns moradores não era potável.”

No próximo dia 11, está prevista a implantação do programa na Vila Olavo Costa, na Zona Sudeste, com a presença da secretária nacional de Renda de Cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social, Lúcia Modesto. “Um dos assuntos que serão discutidos é o reforço das metas de cadastro do Bolsa Família. Atualmente, estamos diante de dois problemas: as famílias cadastradas que não estão recebendo o benefício e as famílias que podem receber o auxílio, mas não foram cadastradas.”

De acordo com Garcia, futuramente, a análise de risco social levará em consideração outras variáveis, como a violência. “O mapa ainda não entrou na faixa da segurança. Há áreas que, de repente, não são tão pobres, mas estão vulneráveis por conta da violência. Temos muito trabalho pela frente.”
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