Comemorações do dia do trabalho em 2009 contribuiu ainda mais para o esfacelamento do sujeito social e político no Brasil

[O trabalhador deixou de ser um sujeito social e político para ser convertido em matéria-prima da produção]**

Centrais sindicais promovem milionárias festas de multidões, o que só se faz quando tudo vai bem.

[As centrais sindicais no dia 01 de maio de 2009 fizeram o trabalho dos governantes de amansarem a massa, em vez de denunciarem o martírio dos trabalhadores]**

Mais circo do que pão

Comentários baseados no texto de José de Souza Martins* - Fonte: O Estado de S.Paulo


- Na mesma semana em que o Ipea divulga a péssima notícia de que a crise financeira internacional já alcança intensamente o nível de emprego formal no Brasil, as centrais sindicais anunciam milionárias festas de multidões, do tipo que só se faz quando as coisas vão muito bem. De fato, as coisas vão muito mal para os trabalhadores. A perda de emprego foi maior no interior do que nas regiões metropolitanas. Nas últimas décadas, a indústria escapou das regiões operárias densamente politizadas e intensamente reivindicativas e foi se refugiar no interior [como em Juiz de Fora,MG]** em busca de mão-de-obra mais barata e mais dócil, tributos menores ou benefícios fiscais compensatórios, preços inferiores dos terrenos e, portanto, menor renda fundiária a ser paga pelas empresas. Recursos de intensificação da taxa de lucro, sem desenvolvimento econômico real e sem nenhum desenvolvimento social. [O atual prefeito de Juiz de Fora vai anunciar por estes dias uma nova empresa que se instalará na cidade nas mesmas bases ou sem ampla discussão destas bases]


Há anos, e não só agora na crise, [muitas empresas estão só aproveitando a crise para instaurar processos para explorar ainda mais o trabalhador e ter mais lucro, de modo que] o ganho de muitas empresas é consequência da manipulação lucrativa das anomalias do mercado, da produção e do trabalho. Tais artifícios se manifestaram também nas áreas de permanência geográfica das empresas, com a reestruturação produtiva, a precarização do trabalho e a terceirização, o que, em última instância, acaba transferindo para o próprio trabalhador o ônus da intensificação da acumulação do capital. Em tudo, um cenário de imprevidência e de despreocupação social das empresas mesmo quando há preocupação com as condições de vida de seus próprios empregados. O desemprego resultante da crise de agora deriva muito mais de uma economia cronicamente à beira do abismo, no perigoso limite da racionalidade econômica. Uma economia divorciada da política e uma política que, quando se interessou pela economia, o fez, como neste governo, para referendar, estimular e subsidiar suas irracionalidades. [ Empresas que planejam dia e noite diminuir o capital humano. Ver notícias sobre desemprego na fábrica da Mercedes em Juiz de Fora para ter um exemplo disso.]

É desta mesma semana outro estudo sobre o desemprego, o da Fundação Seade-Dieese. A base geográfica de referência é aqui diferente da do Ipea, pois se restringe a seis regiões metropolitanas. Além do que, a concepção de desemprego é igualmente outra. Para o Ipea, emprego é emprego formal com carteira assinada. Para o Dieese-Seade emprego não se restringe à ocupação com vínculo empregatício formal e carteira assinada. Se a crise chegou à economia laboral formal, chegou também à economia informal, sempre tida como válvula de escape daquela. Os dados apontam mais de 3 milhões de desempregados no País e só na região metropolitana de São Paulo, mais de 1,5 milhão de desempregados. Os dados do Ipea indicam que preservaram seu emprego os trabalhadores que ganham entre meio e um salário mínimo e que são jovens, o que é melancólico, pois sequer permite a ilusão de que ao menos uma parte da sociedade está preservada contra a crise e indicaria para ela uma saída possível. A economia de mercado não se robustece em cima de misérias como essa. [Nem a economia informal está tranquila neste modelo econômico. Este quadro apresenta o império da miséria. Um mundo sem sáidas.]

O mercado de trabalho brasileiro expressa, nesse quadro, uma característica própria de país subdesenvolvido e, além do mais, sem perspectiva de superação das dificuldades que crescem para os que dependem do trabalho para viver. A economia brasileira hoje é uma economia dependente de lucros do comércio de exportação e sua vantagem comparativa em relação a outras economias depende do baixíssimo nível de remuneração de sua mão-de-obra. Complementarmente, o preço da terra e as formas criminosas de acesso à posse da terra têm assegurado também uma renda fundiária diferencial que torna mais lucrativo que grupos estrangeiros produzam aqui o que produzido em outros países seria muito mais caro.[ Lê-se domínio dos latifundios. Isso, desde 1530 no Brasil. E a reforma agrária? E a limitação da área da propriedade privada no Brasil? E a equiparação dos salários? E a diminuição da desigualdade social? Esta discussão tornou-se obsoleta ou tornou-se retórica de políticos demagogos. Ou, bem pior, criminaliza-se este discurso.]

A órfã massa humana que, no mundo todo, viabilizou a imensa acumulação e concentração de riquezas, a partir dos anos 70, era a única e sólida alternativa para salvar o sistema econômico da ruína decorrente de seus ganhos financeiros escandalosos, sem qualquer contrapartida social e mesmo econômica. O que foi tirado em excesso dos que trabalham, acumulado em excesso e desfrutado irracionalmente reflete-se na pobreza social do mercado constituído por aqueles que poderiam manter o que Keynes definia como nível de renda e emprego e seu efeito multiplicador. A irracional economia do neoliberalismo matou seus salvadores. Pouco ou nada adiantam, agora, políticas de distribuição de esmolas à mão cheia, como nos programas pseudo-sociais do governo brasileiro. Elas não terão o impacto de que a economia precisa. Os dados das pesquisas mencionadas indicam que se salvam os que conseguem trabalhar sem plena inserção econômica e social, os chamados excluídos.[Espero que nas pequenas cidades do interior pelo menos ainda seja possível ser pobre, longe da violência e da miséria, exercendo um trabalho qualquer numa economia de subsistência. Só para sobreviver mesmo, mas com alguma dignidade ainda. Embora, excluído da economia de mercado e do consumo da cidade grande. Todavia, é certo que...]

Os países nessa situação encontram-se há anos em busca do chamado trabalho puro, o trabalho sem corpo nem vida, o trabalhador que não come nem grita, nem vive. As reiteradas denúncias da Organização Internacional do Trabalho quanto ao número de trabalhadores vivendo em condições de escravidão em países como a Índia, a China e o Brasil são reveladoras da disseminação dessa insidiosa economia do extermínio, em que o próprio trabalhador é convertido em matéria-prima da produção.[O trabalhador não pode mais pensar, ter ideologia própria contrária a do empregador, questionar ou ir contra as decisões do empregador. O trabalhador só pode se adequar e se adaptar aos processos exigidos e desejados pelo empregador. O empregado não pode mais ser um dissidente em sua empresa sem correr o risco de ser a todo momento ameaçado e avisado de seu inoportuno ato por colegas e superiores. Tal fato, acena como uma ofensa extremamente grave à dignidade do empregado.]

Nesse cenário,[que não se limita a lugares inóspitos e considerados incultos deste país, mas também inclui e envolve centros educacionais, como, por exemplo, a Universidade de Piracicaba e outros, onde] o vocabulário do trabalho e do desemprego desdobra-se e complica-se, distanciando-se da linguagem mais precisa dos fins do século 19 e do início do século 20, quando a sociedade de classes ainda era dominada pela polarização de interesses entre o capital e o trabalho. Quando o trabalho era concebido como uma força social com potencial histórico e competência de mudança e era propriamente uma força política antes de ser um instrumento partidário. Dia do Trabalho era o dia de celebrar o martírio do trabalhador numa sociedade que ainda não reconhecia o sujeito social e político gestado pela força laboral dos que trabalhavam. A confusão vocabular de hoje, num emaranhado de tecnicismos [a educação, projetos educacionais estão cada vez mais dominados por estes tipo de pensamento] que procuram distinguir níveis de emprego e níveis de desemprego, expressam justamente o esfacelamento desse sujeito social, de sua força histórica e de sua competência política. Resta-lhe o circo, mais do que o pão.

*Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USPe autor, entre outros títulos, de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

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