O professor e os sistemas eletrônicos de aprendizagem em faculdades e colégios.

São Paulo, terça-feira, 09 de fevereiro de 2010

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Professor quer extra por trabalho on-line

Remuneração por novos mecanismos, como blogs e Twitter, é a principal reivindicação na campanha salarial da rede particular em SP

Docentes dizem que tempo dedicado fora da sala de aula, antes restrito a preparação e correção, dobrou nos últimos anos com essas ferramentas

Leticia Moreira/Folha Imagem


O professor de matemática Mario Abbondati na sala de informática do colégio Bandeirantes, onde prepara as aulas pela internet

FÁBIO TAKAHASHI
TALITA BEDINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL

O trabalho da professora Lígia não se resume mais a aulas, correção de trabalho e aplicação de prova no curso de publicidade. Com a adoção de sistemas eletrônicos de aprendizagem em faculdades e colégios, agora ela tem de criar conteúdo exclusivo para os alunos seguirem na internet, publicar todas as aulas e tirar dúvidas on-line.
"Fico em contato com alunos até a meia-noite por meio dessas ferramentas. Sem ganhar nada pelo trabalho extra", diz ela, docente da Universidade Mackenzie; ela prefere não ter o nome verdadeiro divulgado.
A remuneração pelo trabalho de alimentar os novos mecanismos tecnológicos utilizados na educação (blogs, Twitter e plataformas como Moodle, em que o aluno acessa conteúdos via internet e conversa on-line com professores) é a principal reivindicação dos docentes da rede particular na campanha salarial deste ano em São Paulo.
Professores ouvidos pela reportagem dizem que o tempo extraclasse exigido dobrou nos últimos anos devido à introdução das novas ferramentas. Antes, eles apenas preparavam as aulas e corrigiam trabalhos e provas - atividades mantidas.
"Essa forma de aproximação com os alunos, por meio da tecnologia, é fundamental. Mas o professor deve ser remunerado", diz o presidente da Fepesp (federação dos docentes da rede privada), Celso Napolitano.
A proposta da entidade é que os professores, tanto do ensino básico quanto do superior, ganhem hora extra por conta dessas atividades ou tenham um tempo na jornada de trabalho específico para esse fim.
A convenção atual da categoria prevê acréscimo de 5% no salário docente para atividades extraclasse, como preparação de aulas ou correção de trabalhos. Mas não abrange a dedicação aos novos sistemas.
Professores e escolas começaram a negociar nesta semana a reivindicação. Ainda não há definição sobre esse ponto nem para o pedido de reajuste salarial acima da inflação.
A média de remuneração na rede privada no Estado é de R$ 1.820 (no ensino médio) e R$ 2.615 (no ensino superior) -os valores, porém, são muito divergentes no sistema; alguns colégios tops pagam mais de cinco vezes esses valores; outros, bem menos que a média.
"As escolas afirmam que não é obrigatório o uso das ferramentas. Mas isso é considerado na hora de definir se o professor ficará no próximo ano", diz um docente do colégio Rio Branco.

Optativo
A diretora do Rio Branco, Esther Carvalho, diz que as ferramentas são, de fato, optativas. "Mas quem não sabe o que são está fora de seu tempo."
Aluno do colégio Bandeirantes, um dos pioneiros da utilização das tecnologias, Leonardo Maçan, 13, diz serem indispensáveis os meios virtuais. Ele conversa diariamente com professores por e-mail. "Seria chato ter de esperar pela resposta."
Já o colega Dimitri Scripnic, 12, elogia uma plataforma virtual na qual os professores publicam o conteúdo da aula dada no dia. "É mais fácil do que anotar no caderno. E ajuda para se organizar para as provas."
O Semesp (sindicato das universidades particulares de SP), o Sieeesp (sindicato das escolas básicas privadas do Estado) e o Instituto Mackenzie não se manifestaram sobre o assunto.

São Paulo, terça-feira, 09 de fevereiro de 2010







entrevista

Tecnologia estimula aluno, diz educadora

DA REPORTAGEM LOCAL

A conselheira da Associação Brasileira de Ensino à Distância, educadora Marta de Campos Maia, diz que o uso dos recursos virtuais não pode ser negado.





FOLHA - Por que incentivar o uso dessas tecnologias?
MARTA DE CAMPOS MAIA - Cada aluno aprende de uma maneira. Se eu dou várias ferramentas a ele e digo para ele estudar onde ele quiser, no momento que ele quiser, amplio a possibilidade de estudo e estimulo esse aluno a aprender de uma nova forma. Os alunos de hoje são integrados às novas tecnologias. Trabalham em rede. Se lançam uma pergunta numa rede social, estão ligados a centenas de pessoas e têm essa resposta num piscar de olhos.

FOLHA - E eles exigem isso dos professores?
MARTA - Eles querem tudo muito rápido, muito veloz. Hoje, se você demora para entregar uma avaliação ou para dizer como ele foi no trabalho, ele vai reclamar e reclamar muito. Ele quer do professor um contato, uma integração.

FOLHA - Mas os professores estão preparados?
MARTA - O gargalo está nos professores. Enquanto eles não estiverem retreinados para pensar de uma outra forma, para deixar de pensar no conteúdo da disciplina e passar a pensar na aprendizagem do aluno, não vão conseguir atingir os bons níveis educacionais.

FOLHA - Há resistência?
MARTA - Sim, acho que os professores têm muita resistência, principalmente os mais velhos. Mas isso tende a desaparecer.
Como os alunos fazem avaliações constantes dos professores, a disponibilidade do professor fora da sala de aula é mais um quesito avaliado. Ele não vai poder negar isso por muito mais tempo. Pelo menos, então, que ele seja remunerado.

São Paulo, terça-feira, 09 de fevereiro de 2010







Colégio não sabe como calcular trabalho em casa

DA REPORTAGEM LOCAL

Escolas particulares dizem que, como as mudanças são recentes, ainda não houve tempo para criar um mecanismo justo para remunerar o trabalho exigido pelas novas ferramentas.
"É algo absolutamente complexo porque não existe legislação para isso", diz Luis Antonio Laurelli, diretor-geral do Pueri Domus. "Como mensurar o número de horas que o professor pode dedicar na sua casa?"
A diretora do colégio Rio Branco, Esther Carvalho, concorda. "A situação está confusa. Se o professor escreve uma aula, por que não prepara um vídeo?", diz a diretora. "Mas nada impede que conversemos sobre mudanças [de remuneração]."
Para Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação e dono da escola Uirapuru, em Sorocaba, a solução seria pensar em um contrato que levasse em conta o tempo que os professores passam atendendo e o número de alunos atendidos. "Não é como uma hora-aula. Os referenciais são outros, devem variar conforme o projeto."
Mas há colégios que pensam diferente. O Bandeirantes, que tem um departamento só para cuidar das atividades virtuais, diz que não é necessário pagar hora extra para o professor que responde dúvidas por e-mail ou disponibiliza aulas nas plataformas virtuais do colégio.
"Antes o professor preparava a aula e colocava a matéria na lousa. Hoje, ele faz no Power Point e coloca na sala virtual. Isso não tem que ser remunerado", diz Mauro Aguiar, diretor presidente da escola. "O professor precisa é ser bem remunerado e receber recursos para usar as novas tecnologias."
No colégio, as atividades virtuais são uma espécie de continuidade do conteúdo passado em sala de aula. E, para isso, os professores recebem treinamentos constantes, diz Mario Abbondati, coordenador de tecnologias educacionais do Bandeirantes.
"Os professores sabem que esses ambientes colaborativos auxiliam no aprendizado e que, sem eles, estariam limitando o aprendizado apenas para a sala de aula." (FT e TB)
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