Folha Online - Valdo Cruz - Que país é esse? - 06/07/2010

Um dos grandes problemas deste país é desigualdade social.

 
 

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via www1.folha.uol.com.br em 06/07/10

Que país é esse?

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Difícil não se lembrar do título da canção de Renato Russo, cantada pela sua banda Legião Urbana, ao ler a coluna da competente Mônica Bergamo no último domingo. Antes de seguir em frente, digo logo que não sou nenhum comunista. Considero o capitalismo, dentro das circunstâncias atuais, o modelo mais apropriado para garantir o crescimento da economia mundial, com seu estímulo à competitividade e à lucratividade. Não é um modelo perfeito, mas funciona com todas as suas imperfeições. Entre elas, a principal, em minha opinião, é não ter eliminado ou reduzido a contento o fosso entre ricos e pobres.

Bem, voltando ao início, é exatamente por isso que, ao ler a coluna de Mônica Bergamo, bateu o mesmo questionamento de Renato Russo. Impossível, na minha opinião, ler o "Guia da Pechincha" e não perguntar "que país é esse?". Está lá impresso, no caderno Ilustrada da Folha, que foi aberta a temporada de liquidações das grifes internacionais e clientes saíram correndo para comprar casacos por R$ 28 mil, vestidos por R$ 16 mil e botas por R$ 3.000. E, segundo registra a jornalista, a turma do andar de cima, como diz Elio Gaspari, achou tudo barato, avaliou que "o preço tava ótimo!".

A coluna de Bergamo revela o mundo da pechincha das grifes internacionais, de como o andar de cima consome o seu dinheirinho. Tudo bem, eles têm direito de gastar sua grana do jeito que quiserem, ainda mais se foi ganho honestamente. Ninguém tem nada com isso. Cada um faz o que quiser com o que é seu. Não vou nem entrar em comparações sobre quantas famílias poderiam receber o benefício do Bolsa Família com o casaco de R$ 28 mil adquirido na liquidação. Gostaria, sinceramente, é que a turma que governa esse país parasse para meditar um pouquinho sobre essas cenas de realismo fantástico relatadas no "Guia da Pechincha". Principalmente os políticos, como Serra e Dilma, que, neste ano eleitoral, estão disputando a sucessão do presidente Lula.

Sabe por quê? Primeiro, porque, proporcionalmente, o rico paga muito menos imposto do que as classes média e baixa desse país chamado Brasil. A baixa não paga impostos diretamente, mas sofre com a tributação indireta embutida nos produtos que consome. A média é tributada diretamente pelo Leão da Receita Federal e não tem como fugir da mordida. Quando tenta, corre o risco de cair na famosa malha fina. Já a classe alta, a verdadeiramente rica, tem fórmulas e fórmulas de fugir da tributação. As famosas brechas tributárias, ou elisão fiscal, no jargão fiscal. Assim, essa classe deixa de contribuir como deveria para os cofres públicos.

Enquanto isso, ela desfila pelas liquidações de grifes internacionais, torrando até R$ 200 mil em casacos de pele, de couro e outras peças por cabeça. Isso mesmo, uma única pessoa torrou essa grana na liquidação. Repetindo, se o dinheiro é dela, o que eu tenho com isso? Ela tem o direito de fazer da sua grana o que bem entender. Só que, quem governa esse país, deveria dar uma olhada mais atenta sobre essa turma. Checar se realmente está pagando impostos equivalentes ao seu poder de compra. Com certeza, vão descobrir que muitos não estão. Posso estar errado, mas a pessoa que comprou uma única peça de grife internacional por R$ 35 mil pode muito bem não ter contribuído para a Receita tanto quanto um assalariado de classe média. O triste da história é que, se esse grupo pagasse na mesma proporção que os demais, o tal fosso entre ricos e pobres poderia ser menor.

Aí vem o segundo ponto que os candidatos deveriam observar. Enquanto alguns poucos têm mais do que o suficiente para torrar sua grana em grifes internacionais, a maioria sobrevive com baixos salários. Esse fosso entre classes é o retrato da nossa desigualdade de renda, que está entre as maiores do mundo. Isso mesmo, continua sendo uma das maiores do mundo. E trabalhar para reduzi-la não significa ir contra o sistema em vigor. Pelo contrário. A experiência mostra, inclusive, que a economia melhora quanto mais renda for distribuída.

O detalhe dessa questão é que ninguém se mostra muito disposto a mexer com esse pessoal da classe alta. Principalmente quando se chega ao poder e com ele começa a conviver.

Valdo Cruz, 48 anos, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia.


 
 

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