O ecumenismo é a vivência intransigente da laicidade

Cena do filme Lady Chatterley. Um bom filme francês que permite-nos refletir se o amor é uma necessidade ou uma possibilidade. O verdadeiro amor é um ato de liberdade ou simplesmente carência?
Ser ecumênico é ser um religioso ou um não religioso que defenda um governo, uma sociedade e uma educação laica que garanta a existência do diálogo de todos os religiosos e ateus na defesa do bem comum. A defesa do bem comum que alimenta a vontade de solidariedade e fraternidade de um grupo ecumênico é apenas parte de sua definição. O amor não é capaz por si só de aplacar a crise de um movimento ecumênico. O amor que ainda afirma a liturgia própria, o mito próprio, as práticas e exigências de sua religião na promoção do bem comum em um movimento ecumênico não é um amor livre suficiente para viver juntos a diferença incondicional, comum e gratuita de ser no mundo.
A diferença de ser no mundo revela a nossa incompletude. A consciência de nossa incompletude impede-nos de discriminar qualquer um sobrepondo nossa identidade e nossa verdade à identidade e à verdade do outro. Impede-nos de firmar o movimento ecumênico sobre qualquer identidade e verdade. Nem mesmo por um conjunto de identidades e verdades é possível sustentá-lo. O movimento ecumênico repousa sobre a consciência da nossa incompletude, portanto, depende do surgimento de um sentimento de humildade e de um sentimento de que não é mais necessário afirmar no movimento sua identidade, pois, nele existe uma tranquilidade quando há de fato uma compreensão ecumênica de que a manutenção do que precisamos para ser o que somos, ou seja, nossa autonomia está garantida.
Portanto, ser ecumênico exige que sejamos sensíveis a realidade do religioso e do ateu e reconheçamos os problemas que diminuem a sua autonomia. Ser ecumênico é trabalhar para que a autonomia do religioso e do ateu sejam mantidas. Trabalhar para que sejam mantidas a tranquilidade de que cada identidade possa continuar coexistindo, sendo expressa e contribuindo ao seu modo para a diversidade cultural.
Os problemas que diminuem a autonomia das pessoas são de ordem econômica e política. Esta política problemática contribui para o afastamento das pessoas de sua identidade valendo-se de suas carências econômicas e estratagemas de manutenção destas carências. Desse modo, fica claro que não basta movimentos de solidariedade - fraternidade pontuais para solucionar estes problemas. É preciso conhecer estas estratégias. Conhecer para poder ajudar cada um a defender a sua identidade. Conhecer ideologias, moralismos, fanatismos, dogmatismos, fundamentalismos de toda ordem.
A solução passa então pela vivência de uma política intransigente da laicidade. Neste sentido, a laicidade não pode ser mais entendida como parte apenas da defesa da liberdade de expressão, mas com o cuidado que devemos ter com as pessoas de culturas diferentes. Cuidado para que elas possam continuar vivendo ao seu modo, como por muito tempo fizeram e poderem escolher a qualquer tempo mudar por si só, como abertura, como possibilidade e não como necessidade, como obrigação, por coerção, por falta, pelo vazio e pela carência que os tornam menos gente. A vivência da laicidade é a vivência do amor livre em sua forma mais sublime. Afirmação da liberdade que tornam-nos, mesmo consciente de nossa eterna incompletude, gente mais alegre, mais feliz, mais tranquila, mais amorosa, mais gente.

Luiz Henrique Eiterer
05/09/2010

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de pesquisa: o que é hipótese e marco teórico

Projeto de pesquisa: construindo o marco teórico

História do Direito: O direito grego antigo.