O crime só está se reestruturando no Rio de Janeiro: a hegemonia capitalista do crime.

O mercado de drogas, articulado com o mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse em perpetuar tudo isso. O estado em si é o crime interessado no capital que envolverá as Olimpíadas.

[O crime só está se reestruturando] "Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia". É o que diz Luiz Eduardo Soares em seu blog

Da mesma forma, em uma entrevista por telefone concedida à IHU online, José Cláudio Souza Alves diz que "o que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto, controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o Terceiro Comando.

Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e sobreviva".


Segundo José Claúdio e Souza não está em jogo nas cenas de guerra no Rio de janeiro a destruição da estrutura do crime. Esta estrutura está se rearranjando apenas. "Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime".

O que está acontecendo no Rio de Janeiro exige hoje uma análise mais acurada e não essa espetacularização midiática, cujo objetivo é: "escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ."

No mesmo sentido vai o texto de Bruno Meschesi Silva no Jornal Brasil de Fato, no qual afirma que "convém mencionar, ainda, que, em alguns casos, o crime organizado passou a ser comandado pelas milícias, nova modalidade de atuação do crime, agora não mais comandado por marginais das próprias comunidades periféricas, mas, sim, por agentes que deveriam zelar pela segurança pública, sendo muitas vezes aliados a políticos para conseguirem impor o controle em várias comunidades."

Outro argumento citado por José Claudio Souza Alves de que só interessa no momento o desmantelamento de um só segmento do crime e não um ataque ao crime ou ao tráfico de drogas. Para ele " A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não se entra nas favelas onde os o Terceiro Comando está operando? Porque o Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa significativa."


Segundo os autores citados acima o crime no Rio de Janeiro está se reestruturando facilitando a hegemonia de grupos que já estão articulados com as milícias  e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs.
Nelas, nas UPPS, "a desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura", afirma José Claudio Alves.
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