Vida acadêmica norteada pela quantidade e a diminuição de direitos

Esta é uma discussao sobre a pressão que existe hoje em dia para publicar artigos e fazer uma quantidade enorme de cursos e projetos. Geralmente isto acontece para o professor garantir uma jornada mínima de trabalho, que não se torna mínima, mas ultrapassa aquela que ele pode suportar. Atualmente, o professor precisa criar, dirigir ou pelo menos participar de inúmeros projetos. Este fato é mais uma evidência da existência de uma lógica vigente de dimimuição de direitos da maioria dos docentes através do discurso da importância da formação continuada exigente e baseada na computação de cursos, qualificações e artigos publicados. Tal discurso contribui para a formação de um docente sem cidadania: a maioria.  Contribui para o aligeiramento dos cursos, dos projetos e da confecção de artigos ou qualquer publicação. Tal discurso contribui para formar uma corrida louca sem nenhum vínculo com a produção de conhecimento e solução efetiva de problemas sociais.



"Criado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como um instrumento para a coleta de informações e, por conseguinte, para a formação de um banco de dados sobre a pesquisa científica no Brasil (CNPq, 2007), o Currículo Lattes transformou-se em um símbolo distorcido da atividade acadêmica. Em que pese o fato do seu nome prestar uma homenagem ao físico Cesare Mansueto Giulio Lattes, um paranaense que foi um dos maiores cientistas brasileiros e um dos fundadores do CNPq (CBPF, 2007), o currículo virou uma espécie de passaporte acadêmico às avessas: o que vale na vida acadêmica não é o que se publica, mas sim a quantidade do que se publica! Essa lógica, a um só tempo equivocada e perversa, tem seu início ainda quando o docente se depara com a realização do seu curso de doutorado. Um docente sem doutorado é um docente sem cidadania. É alguém que até pode habitar o mundo da academia, mas é invisível, pois não é reconhecido pelos próprios pares e muito menos pelas agências de fomento à pesquisa. É alguém que até pode ter uma série de deveres, vinculados à docência, mas simplesmente não tem direitos: não tem direito de concorrer a editais das agências, não tem direito de lecionar na pós-graduação stricto sensu e, no limite, sequer tem direito de concorrer a bolsas de iniciação científica em instituições que possuem programas de pós-graduação já consolidados.

Curioso é que o resgate dessa cidadania ocorre em dois estágios: um com a obtenção do título de doutor e outro com a admissão para o ensino na pós-graduação stricto sensu. E é aí, nesse momento, a despeito de outros possíveis, que se inicia a corrida atrás do Lattes. Ministrar aulas em programas de pós-graduação, a propósito, implica necessariamente em publicar. Naturalmente, o lado inverso dessa moeda é a pesquisa – a produção de conhecimento –, mas ela é preterida. Prefere-se falar da necessidade imperativa da publicação. Desse modo, a pressão das agências, o ambiente institucional e até mesmo um comportamento mimético em relação aos pares, termina por definir uma vida acadêmica norteada pela quantidade.

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Como forma de incrementar a capacidade de publicação, um dos recursos dos quais os professores têm lançado mão corresponde à co-autoria. Nem todos conseguem ser "The Flash", "Superman" ou "Professor Pardal", para cumprir rigorosamente as diretrizes das agências. Daí, o crescente número de publicações com dois, três, quatro ou mais autores, as quais produzem as famosas citações "et alii". E longe de representar a formação de redes de pesquisa interinstitucionais, tão estimuladas atualmente, tais publicações representam muito mais parcerias intra-institucionais, inclusive com alunos de programas de pós-graduação. A fecundidade e o alcance das publicações têm, assim, um horizonte menos amplo e peculiarmente circunstancial, cujo resultado aponta para uma direção contrária a da relevância acadêmica.

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Publique-se qualquer coisa, de qualquer jeito, de qualquer modo, em qualquer periódico. A CAPES até criou um sistema de avaliação para publicações: o QUALIS. Esse sistema que a princípio foi criado como uma tentativa de classificar os periódicos de acordo com sua possível relevância, apresenta consideráveis limitações e não contempla algumas publicações que são relevantes. Há áreas, por exemplo, em que periódicos considerados importantes pela comunidade internacional são classificados como possuidores de conceito "B" ou "C" pela CAPES. O mecanismo de indexador de impacto da publicação, que é mais completo, porém também mais complexo, não é usado como forma de expressar a possível contribuição de uma publicação. Como conseqüência, muitas revistas são criadas por muitas instituições. Cada uma precisa criar o seu próprio periódico, garantir que ele seja classificado no QUALIS da CAPES e abrir um espaço para a publicação dos seus docentes.

A pressão para publicação que existe no meio no meio acadêmico, portanto, tem sido contínua e se traduzido de diferentes formas, ora veladas, ora explícitas. O padrão de comportamento acadêmico ideal, entretanto, ainda está longe de ser alcançado – se é que ele existe. Enquanto isso não acontece, é aconselhável ampliar o escopo do debate e definir uma relação com o Lattes de um modo que se possa estar mais próximo da relevância acadêmica e não da quantidade. É possível que, assim, construa-se alguns passos iniciais para se ter um propósito efetivamente acadêmico, o qual é distinto do comportamento de quem repete o que os outros estão fazendo, apenas por fazer, sem questionar ou saber exatamente para onde ir." (VIEIRA, Francisco Giovanni David. 2007).
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