Crítica da modernidade segundo Gabriel Marcel ou como o homem pode descobrir o seu próprio mistério

Gabriel Marcel dirá que o homem conhece seu próprio mistério pela participação, pois, o ser não é algo abstrato, uma ideia simplesmente, mas o mais cheio de vida que existe, de modo que aproximar-se dele se dá de maneira concreta, isto é, na participação de experiências muito complexas como por exemplo, o amor, a amizade, a conversa sincera e aberta, a fidelidade, a esperança, entre outras.

Um mundo onde o homem foi reduzido a um conjunto de funções: trabalhador, estudante, consumidor, produtor, ele, este homem infeliz, foi transformado somente em mais um funcionário.

Esta situação do homem é degradante, pois ele aparece a si mesmo e aos outros como um feixe de funções: funções vitais (comer, dormir, ...) psicológicas (ver, ouvir, sentir,medo, raiva,...) e sociais (consumidor, empregado, ...). Este homem considerado um obreiro ou um empregado não está sendo transformado em uma máquina que funciona, que é comprovada pelo médico, reformada de vez enquando pela clínica, dado baixa na morte e depois percebida como uma peça perdida? Esta situação do homem é a fonte de seu desespero, pois, ele perdeu o sentido para o seu ser, ou seja, o próprio sentido e confunde ser com sua vida ou com o seu pertencer ou com o seu ter. Ao contrário, para Gabriel Marcel o mais humano é o mais real. Isto é, o que o torna cada vez mais lúcido e o que o aproxima de modo concreto do seu ser são experiências concretas como amar, ser fiel, ser e fazer-se amigo, admirar-se, gozar e sonhar, dar peso ontológico às realidades mais humanas e cotidianas que estão ao alcance da mão de todos os homens, mas que somente é captado por espíritos humildes e audaciosos às vezes.

A degradação do homem impede esta captação. A degradação do homem vem da redução do homem de ser pessoal à condição de objeto. A degradação se dá na confiança exagerada na força de si mesmo, somente de si mesmo. De modo que, o otimismo no progresso científico e técnico acabou voltando as costas ao próprio homem. A confiança foi deslocada do homem para a ideia de preparação, para a técnica, para o método, para a ciência. De modo que hoje em dia a confiança é deslocada para qualquer outra coisa menos para o amigo. O otimismo deu lugar ao absurdo.

Um homem que lhe falta o sentido ontológico, que perdeu a consciência de possuí-lo é geralmente o homem moderno, pois, na modernidade o homem exagerou a ideia de função. O indivíduo tendeu sempre na modernidade a aparecer ante a si mesmo e também ante os demais como um simples feixe de funções. Funçoes vitais, funções sociais e funções psicológicas. Apenas é necessário insistir na impressão asfixiante de tristeza que se depreende de um mundo cujo eixo central é a função. O mundo centrado na idea de função, a vida está exposta ao desespero, desemboca no desespero, porque soa oca; se a vida resiste ao desespero é unicamente na medida em que atuam no meio desta existência e a seu favor, certos poderes secretos que a vida não está em condições de pensar, nem de reconhecer.1 Evidentemente, esta cegueira reduz o seus efeitos.

Fico por aqui, pois, senão a mensagem ficará muito grande. Prometo até mesmo para mim mesmo contar em outra oportunidade mais sobre as ideias de Gabriel Marcel sobre o homem moderno. Acho fundamental organizar melhor suas ideias. Mas, quero advertir o leitor que outros autores constataram a mesma coisa em relação à modernidade, mas, creio que Gabriel Marcel é um dos autores que mais claramente se posiciona contra os exageros provocados pela modernidade, não se limitando simplesmente em descrevê-la.

Notas:

[1]Cf. MARCEL. Gabriel. Aproximacion al mistério del ser. Posición y aproximaciones concretas al misterio ontológico. Madrid: Ediciones Encontro, 1987.
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