O governo do vazio


12:30

LIPOVETSKY, Giles. A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Prefácio de Manuel Maria Carrilho. Lisboa: Edições 70, 2016.

Doravante, tudo indica que o deserto é o conceito para compreender a sociedade contemporânea.

Um deserto paradoxal, de tipo inédito, sem catástrofe, sem inflamar, sem se identificar com o nada, sem trágico e nem apocalipse.

O mundo interior dirigido pelo próprio interior, introdeterminado  ou auto-absorvido, e não mais ou menos pelo Outro, extrodeterminado, dá lugar ao deserto, um novo tipo de personalidade, uma nova consciência indeterminada, disponível e flutuante.

O novo deserto é auto-absorvido, discreto, sem barreiras, indeterminado, bacana, indicativo, prático, sob medida, pacificado, caloroso, flexível, disponível e flutuante.
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Os grandes eixos modernos, a revolução, as disciplinas, o laicismo, a vanguarda, foram desafectados à força de personalização hedonista; o optimismo tecnológico e científco desmoronou-se, enquanto as inúmeras descobertas eram acompanhadas pelo envelhecimento dos blocos, pela degradação do meio ambiente, pelo apagamento progressivo dos indivíduos; já nenhuma ideologia política é capaz de inflamar as multidões, a sociedade pós-moderna já não tem ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem gloriosa de si própria ou projecto histórico mobilizador; doravante é o vazio que nos governa, um vazio sem trágico nem apocalipse. (Prólogo)



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(...)a sociedade pós-moderna já não tem ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem gloriosa de si própria ou projecto histórico mobilizador; doravante é o vazio que nos governa, um vazio sem trágico nem apocalipse. Que erro, o de anunciar precipitadamente o fim da sociedade de consumo quando é claro que o processo de personalização não pára de lhe alargar as fronteiras. A recessão presente, a crise energética, a consciência ecológica não são o toque a finados da sociedade de consumo: estamos destinados a consumir, ainda que de outro modo, cada vez mais objectos e informações, desportos e viagens, formação e relações, música e cuidados médicos. É isso a sociedade pós-moderna: não o para lá do consumo, mas a sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego chamado a conhecer o destino da obsolescência acelerada, da mobilidade, da desestabilização.(...)

De <http://www.almedina.net/embed/index.php/book-view/get-embed/isbn/9789724417462>



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(...) repensarem as políticas culturais, tal como elas têm sido concebidas e executadas na tradição europeia. A tese de Gilles Lipovetsky é que, ao globalizar-se, a cultura mudou de forma e de estatuto, sob o efeito simultâneo e convergente de cinco fatores: o capitalismo planetário, as indústrias culturais, o consumismo, o impacto da mediatização e a generalização das redes digitais. Nasceu assim a cultura-mundo – com ela, a esfera cultural deixou de ser uma área autónoma e periférica, universalizando(...)

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(...) niilistas ou apocalípticas e tanto mais estranho quanto mais ocupa em silêncio a existência quotidiana, a vossa, a minha, no coração das metrópoles contemporâneas. Um deserto paradoxal, sem catástrofe, sem trágico nem vertigem, que deixou de se identificar com o nada e com a morte: não é verdade que o deserto obrigue à contemplação de crepúsculos mórbidos. Consideremos, com efeito, esta imensa vaga de desinvestimento na qual todas as instituições, todos os grandes valores e finalidades que(...)

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(...) organizaram as épocas anteriores se esvaziam a pouco e pouco da sua substância – que é isso senão uma desertificação de massa, transformando o corpo social em corpo exangue, em organismo desafectado? Inútil querer reduzir a questão às dimensões dos «jovens»: um problema de civilização não se resolve com uma geração. Quem é poupado ainda por tal maré alta? Aqui, como noutros lugares, o deserto cresce: o saber, o poder, o trabalho, o Exército, a família, a Igreja, os partidos, etc., já globalmente(...)

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(...) com um deserto (ressalvando-se o facto de a caserna ser ela própria um deserto), onde os jovens vegetam sem grande motivação ou interesse. Portanto, torna-se necessário inovar a todo o custo: sempre mais liberalismo, participação, investigação pedagógica, e o escândalo está nisso mesmo, porque quanto mais a escola se põe a ouvir os alunos, mais estes desabitam sem ruído nem convulsões esse lugar vazio. Deste modo, as greves do pós-68 desapareceram, a contestação extinguiu-se, o liceu é um(...) (p.67)

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(...) malogro ou resistência perante o sistema, a apatia não é uma ausência de socialização, mas uma nova socialização flexível e «económica», uma descrispação necessária ao funcionamento do capitalismo moderno enquanto sistema experimental acelerado e sistemático. Baseando-se na organização incessante de combinações inéditas, o capitalismo descobre na indiferença uma condição ideal para a sua experimentação, que pode agora realizar-se com um mínimo de resistência. Todos os dispositivos se tornam(...)

De <http://www.almedina.net/embed/index.php/book-view/get-embed/isbn/9789724417462>



(...) A indiferença pura feito com produzir o isolamento, o sistema engendra o seu desejo, desejo impossível que, logo que realizado, se revela intolerável: o indivíduo pede para ficar só, cada vez mais só e simultaneamente não se suporta a si próprio, a sós consigo. Aqui o deserto já não tem começo nem fim. (...) (p. 79)

(...) tradição perdem o seu prestígio: o indivíduo que se reconhece como livre já não está adstrito à veneração dos antepassados que limitam o seu direito absoluto a ser ele próprio, o culto da inovação e do actual é estritamente correlativo desta desqualificação individualista do passado. Toda a Escola que constitua uma autoridade definitiva, toda a sedimentação estilística, toda a fixação está destinada a ser criticada e superada a partir do momento em que prevalece o ideal da autonomia pessoal: a (...) (p. 136)

(...) pelas crianças e mais famílias sem pai. Do lado da fachada ajardinada, o hedonismo individualista implica um trabalho permanente de autocontrolo, de reciclagem e de autovigilância. Do lado do pátio das traseiras, mina o sentido do esforço e do trabalho, precipita o desmoronamento das instâncias tradicionais de controlo social (família, escola, igreja, tradição, sindicato), produz dessocialização e criminalização. Como Jano, Narciso tem dois rostos: integrado, móvel, responsável, para a grande(...) (p. 303)

Deserção=>abandono=>afastamento=>despovoamento=>desistência=>imensa vaga de desinvestimento na qual todas as instituições, todos os grandes valores e finalidades que(...) (p.62)

"Homem Cool" - Lipovetsky
Luiz Henrique Eiterer

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