Viva o senso comum: o lugar da vida onde toda interpretação é expressão da verdade e abarca o universal



Por Luiz Henrique Eiterer - Juiz de Fora - Outono de 2009

Este pequeno ensaio tem como objetivo definir o que é senso comum e mostrar sua relação com a verdade, verdade não entendida como adequação, mas como interpretação. O que motivou escrever este ensaio é a ideia dominante que prescreve de um modo errado que quem detém a técnica, o saber escolar ou acadêmico, a ciência é melhor, mais sábio e está mais preparado para a vida. Poucos entendem que toda interpretação é expressão da verdade e, ao mesmo tempo, abarca o universal. E dizem: como assim? Penso na expressão do homem comum, na sua religiosidade, em uma literatura popular, em poesias como de Patativa do Assaré1.

Não compreendem que o senso comum, mesmo não sendo uma propriedade estável de saberes na qual nem todos participam de um modo integrado e tranquilo e mesmo não sendo uma reserva de ideias e normas claras que podem facilmente ser usadas de um modo uniforme, é um lugar que aponta para um centro único e seguro, que não se esgota, não acaba, mas ao contrário, sempre se apresenta como algo novo na história, sempre de um modo inteiro e não em partes ou fragmentos, na multidão de vozes que o torna cheio e denso.

O senso comum manifesta no homem a sua originária abertura ontológica, pela qual ele mesmo nunca é o mesmo na história, isto é, por meio do senso comum é que o homem existe, mas jamais do mesmo modo.

Entretanto, o senso comum não manifesta o que está escondido no interior da mente humana desde que o homem é homem, também não é algo que não se esgota de maneira difusa e sem propósito, não é aquilo que homem deve descobrir através da pesquisa e de métodos científicos. O senso comum manisfesta o discurso presente nele mesmo e que ao mesmo tempo revela e constrói a totalidade do mundo em que se vive.

A retomada da importância do senso comum é uma chamada de atenção de que o mundo não se fecha e nem se esgota nele mesmo e que, de fato, o que existe somente é o homem como um ser aberto e livre para mudar e transformá-lo e transformar-se. Liberdade que seria apenas presunção se o senso comum fosse entendido apenas como um patrimônio cultural, um conjunto de ideias ou conteúdo do pensamento, coisas que deveriam ser ensinadas e informadas, pois, esta posição transformaria aquele que precisa receber estas informações em seres menores, em massa, em seres anônimos, em seres despersonalizados.

Para salvar a liberdade de todo homem poderia se dizer que o conteúdo do senso comum não é importante, mas a razão que ele contém, em exercício. Diria-se, então, que esta razão é que deve ser explicitada. Todavia, também esta razão formal não participa do reino das pessoas e é desprovida de todo sentido. Esta razão é apenas pensamento técnico e instrumental, independente das pessoas, que portanto, não possui em si a verdade, mas capacidade de adequação, adaptação e confirmação do êxito. Mesmo que exercitada pelas pessoas, esta razão não une, mas separa as pessoas. Logo, não as conduzem a um senso comum, antes ao contrário, a um senso não comum. Impondo esta razão impessoal e despersonalizante as pessoas tornam-se mais autoritárias, sendo indiferente ao que todos pensam ou impondo o conteúdo de seu pensamento a todos.

O que une é a verdade. Somente a verdade domina o homem sem oprimi-lo. Esta união não se dá provando, generalizando e nem mostrando a lógica dos processos. Esta união não significa nem massificação e nem impessoalismos. O senso comum não é o reino do anônimo, do ser despersonalizado, do homem não livre, do homem que precisa viver com medo, do homem vulgar, mas se refere ao lugar que não é preciso viver com medo e nem é preciso provocar o medo. Não é o lugar do controle, do governo. O senso comum é o lugar onde vivem semelhantes, pessoas comuns. Comum não porque são da massa, mas porque possuem uma singularidade, uma personalidade própria que pode ser vivida em sua plenitude e expressa de toda forma. Comum porque se afirma, valoriza-se e se preocupa com cada um, como pessoas e, portanto, devido a esta condição, são tidos como seres muito importantes. Comum, porque se trata da relação com o ser que cada homem é. Comum porque é de todos. Comum porque todos devem ser respeitados, não por caridade, ou sentimentalismos.

Contra a despersonalização e a impessoalidade deve-se reconhecer que não é a razão que torna os homens seres iguais. O apelo a razão somente afirma o domínio da pura inteligência e do intelectual que se apresenta nas ironias, no escárnio e nas ridicularizações típicas de doutos e intelectuais. A razão somente hierarquiza, aristocratiza os que a possuem de um modo inteiramente discutível, culminando em uma forma de tirania exercida por intelectuais e técnicos, em uma burocracia fria, insensível e cruel.

Contra a despersonalização não se deve recorrer a caridade ou a retórica adocicada do sentimentalismo e da simpatia. Não se deve assim tornar mais superior os que possuem e dominam a razão, convidando-os a serem simpáticos, humanitários e mais sensíveis. Separando inteligência e coração não se aumenta a igualdade, antes isso diminui ainda mais a igualdade dos homens.

Contra a despersonalização deve-se apelar ao senso comum.
Contra a despersonalização deve-se apelar ao respeito aos considerados humildes, pobres, pequenos e ignorantes. Contra a despersonalização deve-se retomar a consciência de que o que transforma a ausência de medo em liberdade é a verdade. A verdade é o que une. Sem verdade as ações se transformam em arbitrariedade, dominação, em espiritualismos intimistas e dogmáticos, em leviandades, em autoritarismos sempre prontos em degenerar-se em depressão, arrogância, ameaças, dissimulações e hipocrisia.

Revisão do ensaio que publiquei pela primeira no dia 20/04/2009

Nota:
1 Não aprendi ler Patativa do Assaré na escola, mas com uma prima minha que sempre coloca seus versos no Orkut.
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