Crítica da educação da vontade

A educação da vontade se dá pelo governo, pela instrução e pela disciplina. O vetor de tal educação é da criança ao adulto: preparar a criança para a vida adulta. A educação da vontade se dá pelo controle, pela vigilância, pelas ameaças e pela punição, sempre com as ressalvas sobre os excessos improdutivos. A ocupação exigida, planejada e obrigada da criança é sempre o melhor remédio, professam os adeptos da educação da vontade. Para estes, a melhor pedagogia supõe o desenvolvimento dos interesses, ou seja, da tendência intima que cada um carrega dentro de si e que determina quais idéias e experiências irão e devem receber atenção. Por isto, o educador da vontade tem a tarefa de despertar a atenção das idéias que ele deseja que domine a vida de seu aluno, controlando suas experiências e fazendo com que domine determinadas idéias. Assim sendo, a instrução é compreendida como construção: formação moral. Para isto, é preciso manter firme a vontade educada no propósito da virtude. Esta fase da educação da vontade é considerada a fase madura, fase da disciplina, e considerada autônoma.

O método da educação da vontade, de um modo geral, obedece cinco passos: primeiro, faz-se a verificação e recordação do que já se sabe; segundo, de um modo claro e a partir de exemplos e casos apresenta-se o novo conhecimento; terceiro, o aluno deve ser levado a comparar o novo e o velho conhecimento; quarto, é preciso sistematizar e chegar à generalizações; e o quinto passo é aplicar o que aprendeu.

Esta pedagogia é sem dúvida muito utilizada no ensino expositivo das escolas e revelam nelas o domínio do método indutivo e os pressupostos epistemológicos do empirismo. Entretanto, sua psicologia é limitada e exageradamente otimista, pois acredita demasiadamente que é possível controlar o sentir e o querer, postulando que nascem das idéias. Ao mesmo tempo, os adeptos desta pedagogia não percebem que seu otimismo resulta na diminuição do espaço livre do educando, tornando a educação totalmente ou excessivamente heterônoma.

A crítica desta pedagogia, portanto, permite reconhecer o seu limite e convida a todos a inverter o vetor da educação, passando a reconhecer a necessidade de sua superação.

Para atingir a este objetivo, de ser livre na e pela educação, deve-se seguir três passos: o primeiro, reconhecer que o acúmulo de conhecimentos só conduz o homem para o meio de um deserto e, portanto, é preciso desvencilhar-se dos conhecimentos que negam os desejos, a sensibilidade, os impulsos de afirmação da vida e que tornam as pessoas seres insensíveis e cruéis, embora, cheio de moral e valor para a maioria dos membros da sociedade, que não enxergam nem mesmo o deserto, importando-lhes apenas o seu saber; o segundo passo é defender a idéia de que não é preciso viver com medo, de que, de fato, não se vive naturalmente com medo, indignando-se com esta situação que lhe é imposta, na qual se vê, se nutrindo de coragem para questionar o conhecimento que torna os homens medrosos, receosos, desconfiados, injustos, cruéis e insensíveis a eles mesmos e ao outro. Este passo, não cria de fato nada, pois, tudo ainda é deserto, mas é essencial para o retorno da possibilidade da criação, do começo, da recuperação da ligação da educação com a afirmação da vida rompida pela longa história da educação da vontade, marcada no mundo moderno pela busca da escolarização, do diploma, do emprego, da obediência cega às ordens do Estado e que transforma toda produção cultural em mercadoria, objeto de venda e de consumo.

Estes passos são advertências sobre o excesso (desejo de) de disciplina, controle, e governo existentes em nossa educação; e os riscos de uma civilização excessivamente artificial, técnica e pragmática.
Ver: Escola Tradicional: características e crítica.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de pesquisa: o que é hipótese e marco teórico

Projeto de pesquisa: construindo o marco teórico

História do Direito: O direito grego antigo.