A relação entre modernidade ocidental e capitalismo

Na mensagem intitulada "A colonização do poder disciplinar pelo poder institucional no fim da modernidade" constatamos que modernidade ocidental e capitalismo são dois processos históricos não lineares bem diferentes, ou seja, cada um desses processos se desdobraram de maneira própria, embora mantivessem uma relação.

O paradigma que chamamos de modernidade surgiu entre o séc. XVI e o século XVIII, antes mesmo que o capitalismo industrial dominasse o cenário da europa ocidental. Foi somente a partir do final do século XVIII é que modernidade e capitalismo se convergiram e trespassaram-se. Apesar desta convergência os dois processos continuaram sendo diferentes e autônomos. Como se vê, a modernidade surgiu antes do capitalismo e não o pressupunha. Na perpectiva da modernidade o capitalismo muitas vezes se desenvolveu sob bases pré-modernas e mesmo antimodernas.

Provavelmente o paradigma da modernidade ocidental, concebido antes do desenvolvimento do modo de produção da vida capitalista industrial, desaparecerá primeiro por algumas razões: primeiro porque a modernidade não conseguiu realizar todas as suas promessas e segundo porque existe promessas que já foram atingidas e não se mostram mais necessárias ou mesmo se mostram abusivas.

Tanto este excesso como a falta de cumprimento de promessas revelam a situação de crise que vivemos no presente. Uma crise que no fundo revela mesmo é uma situação de mudança paradigmática, que se mostra na designação um tanto inadequada, um tanto imprecisa, um tanto vaga e que se tornou tão popular hoje em dia: "pós-modernidade".

Os pilares da modernidade são a regulação e a emancipação. A modernidade subsiste graças a tensão entre estes dois pilares. Preconizava a modernidade que certa regulação é necessária para a existir liberdade. O Estado, o mercado e a comunidade constituem os princípios do pilar regulação. As artes, a literatura, a ciência, a tecnologia, a ética e o direito constituem os princípios da emancipação.

A grande promessa da modernidade é que por meio da ciência ou seu correlato na educação pela disciplina1, que se tornou a grande via, a instância moral suprema da modernidade, a via dominante de emancipação, o homem poderia se libertar da doença, da fome, da ignorância, da injustiça e do trabalho aviltante. Entretanto, a despolitização científica da vida social, ou seja, a posição científica dominante no mundo moderno, com seu correlato na educação pela medicalização e higienização de pessoas, só foi possível graças a despolitização jurídica do conflito social e da revolta social (excesso de poder estatal).2

O poder jurídico oculta e legitima a dominação exercida pelo poder disciplinar, mas cada vez mais o poder jurídico ou estatal se excede, diminuindo a força e até em certos momentos fazendo crer que prescinde do poder disciplinar, a via emancipatória.3 De modo que, cada vez mais no fim da modernidade, presenciamos uma colonização do poder disciplinar pelo poder estatal, admitindo o esgotamento das energias emancipatórias da modernidade, tornando-se o Estado a grande via de regulação da vida social.4No fim da modernidade, o Estado, o mercado e a comunidade tornam-se as bases da vida social dominando as artes e a literatura, a própria ciência, a ética e o direito. O pilar regulação rompe a tensão com as forças emancipatórias e domina a cena no fim da modernidade.5

Notas:

[1] Na escola aprende-se disciplinas.
[2] O predominio do poder disciplinar se dá graças a tutela da ciência pelo direito a partir do século XVIII na europa ocidental. O réu (ou o paciente) pode pelo tribunal ser conduzido ao hospital ou à prisão. O tribunal usa os recursos da ciência para levar o réu ao campo penitenciário ou não e vice-versa. Esta relação entre ciência e direito confere sentido a vida no mundo moderno. Disciplina, controle, castigos e punições estão imbricados no mundo moderno.
[3]É evidente que tais ideias fazem lembrar das ideias de Michel Foucault.
[4]Cf. SANTOS, Boaventura de Souza. A critica da razão indolente: Contra o desperdício da experiência. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2002. V.1.
[5]O que faz sentido no fim da modernidade é o controle, a punição e o castigo exercidos pelos agentes do Estado. O direito torna-se monopólio do Estado. Para isso, o Estado cria leis para que cada vez mais pessoas, família e demais instituições não possam exercer um poder jurídico autonomo. Fora do Estado passa-se a não existir conciliação entre poder disciplinar e poder jurídico, consequentemente, além da vigilância do estado não há mais estabelecimento de limites. Então, pede-se cada vez mais um aumento do controle do Estado no comportamento das pessoas. Assim, o Estado consolida o seu poder, mas, principalmente, o que presenciamos é o mercado tornando-se o princípio regulatório principal das práticas sociais. Elimina-se, deste modo, hipercientificizando a emancipação, judicializando a política, ou seja, a própria ética e hipermercadorizando a regulação, os receios de futuros alternativos, tornando a emancipação impensável. Adeus então a modernidade.
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