A FACE DE JANUS E O LEITO DE PROCUSTO: DISPOSITIVOS DE CAPTURA DA SUBJETIVIDADE NA DIREITA BRASILEIRA (1930-2022)
A distinção entre filosofia clássica e contemporânea não se esgota na cronologia, revelando-se fundamentalmente ontológica e metodológica. Enquanto a filosofia clássica buscou historicamente a construção de sistemas totalizantes, verdades universais e a metafísica como alicerce do saber, a filosofia contemporânea caracteriza-se pelo rompimento com esses dogmas. Ela direciona seu olhar crítico para o questionamento da subjetividade, da linguagem, das relações de poder e da historicidade, rejeitando a pretensão de uma verdade absoluta e única.
A Nostalgia Restauradora como Dispositivo de Captura
A relação entre a filosofia clássica e determinados grupos políticos contemporâneos, em especial na extrema-direita, não configura uma continuidade teórica genuína, mas sim uma apropriação instrumental. Trata-se do que denominamos como um dispositivo de captura da subjetividade. A nostalgia restauradora, conceito formulado por Svetlana Boym, diferencia-se da nostalgia reflexiva ao buscar a reconstrução total de um passado mítico e glorioso, ignorando deliberadamente as contradições históricas. Grupos políticos utilizam essa face para projetar uma autoridade que recorre ao mito da tradição com o propósito de legitimar a obediência cega no presente.
Complementarmente, a metáfora do Leito de Procusto ilustra como a subjetividade do cidadão é amputada ou moldada para ajustar-se a um modelo rígido e identitário. Em vez de promover uma investigação socrática e dialética, correntes reacionárias utilizam uma caricatura da filosofia clássica para edificar bloqueios epistêmicos. Produções culturais contemporâneas exemplificam essa estratégia ao construírem uma imagem depreciativa dos sofistas, associando-os ao relativismo moral, para, por contraste, validar uma civilização ocidental idealizada. A filosofia clássica é, portanto, reduzida a um totem de autoridade para justificar políticas de exclusão e a desqualificação do debate plural.
Reflexão Crítica e Educação para a Liberdade
A apropriação da tradição clássica pela direita radical converte conceitos rigorosos em dogmas engessados. Sob o pretexto de resguardar valores tradicionais, opera-se o sequestro da autonomia do sujeito, tolhendo o pensamento crítico que constitui a essência tanto do legado clássico quanto da filosofia contemporânea. Para educadores, religiosos e pensadores comprometidos com a emancipação humana, torna-se imperativo desmascarar esses mecanismos de sujeição, promovendo práticas pedagógicas fundamentadas no diálogo, na alteridade e na recusa de qualquer forma de tutela autoritária.
Qual deve ser o próximo passo metodológico e epistêmico da pesquisa para tensionar e desarticular esses dispositivos de captura no campo da educação e da cultura?
Referências
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
- BOYM, Svetlana. The Future of Nostalgia. New York: Basic Books, 2001.
- CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- EITERER, Luiz Henrique. A Face de Janus e o Leito de Procusto: Dispositivos de Captura da Subjetividade na Direita Brasileira (1930-2022). Documento acadêmico autoral, 2026.
- LIMA, L. S.; et al. O uso da ideia de "relativismo moral" nas narrativas conspiracionistas. Mneme - Revista de Humanidades, Rio Grande do Norte, v. 24, n. 53, 2023.

Comentários